Eu entendo que o paraíso é uma criação particular. Eu, por exemplo, gosto mais de frio do que de calor, então a minha visão de paraíso é um local menos tropical do que o sonho da maioria das pessoas. Eu prefiro montanhas do que planícies, prefiro árvores do que areia. Cada um com seus sonhos, certo?
Mas acabei de descobrir um local que é um verdadeiro jardim das delícias para o meu gosto (e pelo sucesso do empreendimento, não devo ser a única a pensar assim, talvez esse paraíso seja até mais coletivo do que eu imaginava). É o Wine Garden que fica na propriedade da Vinícola Miolo no coração do Vale dos Vinhedos (RS).
As sócias (Morgana Miolo e Gabriela Jornada) viajavam pelo mundo do vinho a trabalho e por prazer e numa dessas viagens se depararam com um espaço que vendia vinhos e que as encantou: "Começamos a amadurecer a ideia e pensar no que faria diferença no enoturismo do Vale dos Vinhedos, pois já havia várias coisas e não seria viável fazer mais do mesmo", explica Morgana (foto abaixo).
Para chegar ao formato que criaram, elas se colocaram no lugar de turistas e pensaram em como gostariam de vivenciar o vinho de uma maneira menor formal "tirando a gravata' como afirma Morgana. E aproveitando o grande fluxo de turistas que a Miolo já recebe todos os dias, surgiu a ideia de aproveitar o bem cuidado jardim da propriedade.
O Wine Garden foi inaugurado oficialmente no Carnaval de 2015 com a aprovação do conselho da empresa e depois de muito trabalho para montar uma estrutura que fosse complementar à paisagem e que acomodasse as necessidades de uma pequena produção culinária aliada ao conforto.
Levou um ano para que eu conseguisse ir até lá visitar e fiquei feliz em ver o sucesso que ele se tornou.
Quem viaja pelo mundo do vinho sabe como as vinícolas sabem aproveitar sua paisagem, sua estrutura para fazer o negócio de vender vinho se multiplicar.
Isso, no Brasil, ainda é raro. No máximo o que as vinícolas conseguem é ter um restaurante e muitos deles só abrem para grupos.Com isso o visitante passeia pela estrutura da vinícola e vai na loja, mas se estiver num local bonito, com bela paisagem natural à sua volta, ele não tem como aproveitá-la mais.
É por isso que o Wine Garden ganha cada vez mais visitantes não apenas turistas, mas muitos residentes e colegas vinhateiros que chegam para aproveitar o espaço. É bom para quem tem filhos, pois as crianças podem brincar no gramado e nos brinquedos à disposição, excelente para casais que querem ficar juntinhos nos tapetes, para empresas que querem fazer eventos fechados e apenas para relaxar e tomar uma taça de vinho.
No pequeno cardápio, pães artesanais, bruschettas, queijos e frios montados com capricho. Geléias da região, suco de uva integral e, é claro, vinhos e espumantes.
Morgana conta que os espumantes são campeões em venda, especialmente o rosé, mas que o fato de venderem em taça o vinho ícone da família (Miolo Lote 43), faz desse tinto elegante e encorpado um dos mais vendidos do espaço.
Para quem não sabe, o nome do vinho é uma homenagem ao lote recebido pela família Miolo quando chegou ao Brasil no final do século XIX. A região foi dividida em lotes e à eles coube o de número 43, que é uma parte de onde está a vinícola e o jardim. Tomar um vinho onde as uvas foram cultivadas, onde ele fermentou e amadureceu, é um luxo que qualquer enófilo aprecia.
O único senão do Wine Garden é precisamente sua condição física: ao ar livre. O tempo instável da região faz com que em muitos dias o espaço não possa ser montado. Por isso é bom consultar a página deles no facebook para saber se vai funcionar ou não. Mas uma coisa é certa, se estiver pela região é um passeio obrigatório!
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Ecomuseu Dal Pizzol em Faria Lemos (RS)
Uma vez que eu me sinto uma paulistana com a alma itinerante (que neste época do ano prefere estar na Serra Gaúcha) vou responder a uma pergunta que sempre me fazem: Quais são meus lugares preferidos na Serra?
Pois bem, um dos principais é o Ecomuseu da Vinícola Dal Pizzol, no distrito de Faria Lemos - que pertence a Rota das Cantinas Históricas. E como já escrevi várias vezes sobre esse lugar, pedi para a amiga Paula Brum (gauchíssima advogada e viajante apaixonada) a licença para colocar o link (abaixo) de sua visita ao local. Estávamos juntas, num grupo de jornalistas, e eu adorei o olhar dela sobre esse lugar que tanto me apaixona.
Espero que vocês aproveitem e façam o possível para ir lá conhecer!
http://www.mochilinhagaucha.com.br/2016/02/vinicola-e-ecomuseu-dal-pizzol-vinhedo.html
P.S.: Abaixo o link do meu texto, escrito para este blog em 2011, quando foi feita a primeira colheita no 'Vinhedos do Mundo' da Dal Pizzol, pra quem quiser saber mais.
http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2011/02/vinhedo-do-mundo.html
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Vinho e Preconceito
Vinho e Preconceito
Sou fã confessa da escritora inglesa Jane Austen, que morreu em 1817 e deixou livros que - embora classificados como romances - são um testemunho (e uma crítica) da sociedade inglesa de sua época.
Uma das minhas obras preferidas é 'Orgulho e Preconceito', de 1813, onde a Srta. Elizabeth Bennet, segunda filha de uma familia numerosa e pouco influente, divide-se entre a atração e o orgulho (orgulho no sentido negativo da palavra) pelo influente e nobre Sr. Darcy. Ele, por sua vez, também sente-se atraído pela jovem Elizabeth, mas é atormentado pelo preconceito que sente pelos modos da família da jovem. Os dois sentimentos se intercalam e mudam de personagem conforme a trama do livro avança.
Orgulho e Preconceito são matéria corrente no mundo do vinho. Não apenas no Brasil, estejam certos. Suspeito até que existem em todas as partes, mas por motivos diferentes.
Nos países mais tradicionais, há preconceito das empresas mais velhas com as mais jovens, há arrogância de achar que porque fazem há mais tempo, fazem melhor. Nos países bem sucedidos do novo mundo há preconceito contra quem produz grandes volumes, contra as cooperativas (na Europa isso existe mas é mais discreto) e contra os pequenos produtores que atuam sós. O que todos parecem ter é um orgulho excludente, ao achar que o que fazem em suas caves é cantinas é o melhor produto e - por consequência - o que qualquer outro produtor faz é ruim.
Já o consumidor, principalmente o europeu, quer variedade, preço e - quando tem maior poder de compra - qualidade superior e elegância. Não interessa de onde vem. Pequeno, grande, nativo ou estrangeiro. O que é bom é bom. E ponto.
O 'bullying' com o vinho brasileiro
Nada é fácil neste país, não é mesmo? Apenas a vida dos políticos, ao que tudo tem indicado historicamente.
Orgulho, arrogância, preconceito e 'bullying' (palavra inglesa que significa usar a força física ou a intimidação psicológica para fazer com que alguém faça o que desejamos ou se comporte como desejamos) são matéria presente seja na produção de vinhos no Brasil ou no seu consumo.
O que me preocupa mais é o último. Concorrência entre empresas, produtores, importadores ou vendedores é brutal e, de certa forma, natural. O que não é bom para eles - preciso salientar - é que sejam menos capazes de buscar soluções conjuntas do que seria necessário num país que consome menos de 2 litros de vinho por pessoa ao ano. Mas essa é outra questão.
Meu ponto é o consumidor, ignorante ou enófilo, viajado ou residente, rico ou pobre que bebe procedência (o país de onde vem o vinho), propaganda e nome de uva. Em geral é esse personagem que profere frases como: "vinho brasileiro não presta", "o Brasil não tem terroir para produzir vinhos bons", "o Brasil copia mal o que se faz lá fora e vende isso caro", "só bebo se for estrangeiro". E por aí vai. Quem trabalha com vinho (brasileiro ou não) já escutou ao menos uma dessas.
O que está por trás desses comentários é um conjunto de fatores atuais e históricos. Os atuais são que o preço do vinho brasileiro ainda é caro em comparação com os do mercosul (e as raízes disso são políticas e econômicas, e não apenas do Brasil, mas de nossos principais concorrentes cuja produção de vinhos recebe incentivo de seus governantes, na direção oposta do que acontece no Brasil) e que o brasileiro recebe influências deleutérias da globalização e da publicidade estrangeira.
Isso sem contar que muitos brasileiros se sentem superiores ao falar mal do Brasil e bem de outras nações, achando que os produtos que vem dessas nações não são também frutos de bem estruturadas campanhas de marketing e que ele é a parte viva de uma ação que deu certo.
Por outro lado, o produtor brasileiro - muitos deles, infelizmente - parece não acreditar em publicidade séria, em ações contundentes de marketing, em mudanças de posicionamento. Ao agirem assim passam a imagem de que não acreditam que o próprio vinho tenha condição de competir com os outros e isso os atrasa.
Os fatores históricos dizem respeito ao fato de que 'história' no Brasil é matéria 'chata' e corrompida por tudo que não se pode falar ao longo dos anos de repressão, e que tudo que nos valoriza de alguma forma é apresentado no formato do 'bobo alegre' que - no final das contas - perde o mérito pela pobreza da execução.
O brasileiro não sabe (e isso é mais ignorância do que culpa específica) da nova realidade dos vinhos brasileiros. O brasileiro não foi convidado para essa festa regada a espumantes, brancos, rosés e tintos que exaltam nossas qualidades, nosso trabalho, o aprendizado de décadas e gerações, a tecnologia que o mundo todo utiliza e nós também, as pesquisas que seguem sendo feitas em Champagne e em Garibaldi, na Toscana e no Alto São Francisco.
O brasileiro não tem como se orgulhar de uma história que não lhe foi mostrada, de uma realidade não compartilhada. Mas ele poderia - ao menos - ter a humildade de tentar conhecê-la antes de ventilar seus preconceitos, de vociferar suas opiniões unipartidárias.
O mundo do vinho é múltiplo. Sempre. Tem para todos os bolsos, para todos os gostos e para todos os momentos. Quem gosta mesmo de vinhos não tem preconceito, não bebe 'preço', 'procedência' ou uva. Isso vai de encontro à própria natureza da produção, que precisa se curvar aos caprichos do tempo. Uma safra excelente, outra mediana, outra fraca. Se o 'gosto' das pessoas fosse assim "sério", cada vinho 'maravilhoso' feito numa safra ruim nunca mais seria provado.
É orgulho de ser bobo, é preconceito consigo mesmo, é bullying com quem faz e com quem vende. É vergonha de provar algo novo e ter que engolir a língua por ter falado mal.
É ignorância, e é triste.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
NOVA SAFRA
O título de minha última postagem aqui no blog - em outubro de 2013 - foi: "De Volta à taça". Hoje ele é emblemático para mim, pois volto ao blog depois de mais de dois anos.
Muita coisa mudou em meu entorno, como a mídia e as minhas relações profissionais. Mas outras coisas seguem iguais como a minha ligação com o vinho brasileiro e meu desejo de que ele receba a atenção que merece.
Volto ao blog por conta da (boa) influência de algumas pessoas com as quais convivi nos últimos dias, blogueiros (as) sérios na atuação e divertidos no companheirismo.
Percebi que hoje este espaço tem um peso maior na comunicação do que tinha quando eu o comecei (em 2010) e ainda tenho em mim a intenção de comunicar com seriedade e alegria utilizando esta mídia com respeito.
A safra de uvas de 2016 recém começou no Brasil. Uma safra difícil em muitos aspectos, mas nem tão ruim em qualidade como os críticos se apressam em dizer. De certa forma parece que o mundo do vinho reflete os desafios do próprio país...
No entanto, penso sempre em uma frase de um escritor famoso (creio que é de Victor Hugo) que diz assim: "Tudo o que é necessário para que o mau prevaleça é que o bem não faça nada". Então, eu escolho (assim como muitos outros!) trabalhar, enfrentar e ultrapassar a onda de pessimismo que toma conta de muitos setores, para que saiamos fortalecidos do outro lado. E de taça cheia!
Saúde, alegria, trabalho e bons vinhos em 2016!
Eu volteeeiiiiiiiiiii!
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Voltar à Taça
21a Avaliação Nacional de Vinhos
Há algo de reconfortante numa taça de vinho e, acredito eu, especialmente um vinho tinto. Não, não que eles sejam os meus preferidos. Cada vinho tem seu momento e sua hora ideal, por isso evito dizer que prefiro este ou aquele. Creio que, na verdade, prefiro todos os bons vinhos!
Mas há, num dia qualquer, um conforto em ter nas mãos uma taça de um bom vinho tinto. É um conforto sensorial em muitos sentidos. Seja na forma e volume de uma taça grande corretamente preenchida, seja nos aromas frutados ou amadeirados ou complexos ou fechados, seja na coloração violácea, carmesin, rubi ou negra, seja na densidade mais pesada ou mais leve, em sua textura na boca, nas sensações que provoca e no convite que deixa para mais um gole.
Participar da 21a Avaliação Nacional de Vinhos, em Bento Gonçalves, é para mim como ter uma taça de um reconfortante vinho tinto em minhas mãos, depois de um longo dia de trabalho, numa poltrona confortável, sob a luz difusa de um abajur.
Demorei para me sentir assim, uma vez que considero esse evento o equivalente do 'Oscar' do vinho brasileiro.
Não é uma competição, não é um concurso, mas guarda em si toda a ansiedade e todos os desvarios de um desafio entre vinícolas.
Nesta última edição, realizada no sábado dia 28 de setembro, uma frase muito repetida foi a de que a avaliação atingiu a maioridade total, aos 21 anos. Concordo. Havia no ar uma sensação de coisas bem assentadas, bem feitas, de ordem e dedicação que transmitem uma certa tranquilidade a um evento que une mais de 800 pessoas, por ao menos cinco horas consecutivas de palavrório e serviço de vinhos. Não é pouco para um evento que representa uma indústria de qualidade ainda tão jovem.
Minha percepção me falou de coisas contraditórias, como essa tranquilidade advinda da experiência de mais de duas décadas realizando um evento que cresce aos poucos, da organização primorosa da Associação Brasileira de Enologia, que atribui responsabilidades grandes à todos os envolvidos. Mas muitos desses envolvidos (e vai aí a contradição) são absolutamente jovens, vários deles pouco mais velhos do que a Avaliação em si, e trouxeram ao evento deste ano uma estabilidade incrível e, ao mesmo tempo, uma certa descontração que só a juventude é capaz de ter.
O vinho na taça precisa ser tudo isso. E tudo isso não é fácil. É um desafio e tanto para uma indústria que precisa se adequar a um país que não valoriza seus próprios produtos, a não ser no sentido fiscal.
Sentada entre os mais de 800 participantes, pensando nos excelentes brancos que passaram por minha taça, nas bases de espumantes e nos tintos promissores desta safra de 2013, olho as coisas com olhos de contemplação, com olhos de quem, finalmente, consegue enxergar um pouco além de rótulos. Penso nas variadas sensações do vinho, em seu poder a taça, em sua (pouca, infelizmente) participação nas mesas dos brasileiros, penso que o vinho nacional foi, enfim, tremendamente bem explicado na gaita de Renato Borghetti, que tocou ao final do evento: é tradição gaúcha, com sobrenome italiano, tocada como jazz, intrepretando uma poesia musical de Luiz Gonzaga. É Brasil, e é lindo de ver e bom de beber!
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Uma taça para pensar...
No Museu da Ciência de Londres há uma área especialmente dedicada aos alimentos e bebidas. É uma exibição interativa e muito interessante chamada 'Food for Thought' (Comida para Pensar ou Alimento para as Ideias, como queiram) que fala de nutrição e processamento de alimentos.
Não sei exatamente porque esse local (que infelizmente não visito há muitos anos) me veio à memória hoje, mas é por conta dele que existe o título acima: uma taça para pensar.
Estive hoje num grande e importante evento anual dos vinhos chilenos no Brasil que, mais do que bons goles, me deu muito o que pensar.
Como todo enófilo sabe (e até mesmo o consumidor regular de vinho), o Chile tem muito poder nessa área da economia. O vinho para o Chile está entre os 5 principais produtos de exportação, o que não é dizer pouca coisa num país rico. Existem centenas de empresas de todos os tamanhos dedicadas a fazer desde vinhos industriais até ícones, passando por líquidos muito despretensiosos e chegando a néctares surpreendentes. Acredito que é exatamente assim que deve ser um bom país produtor do Novo Mundo: vários estilos de vinhos, vários preços e muita (e saudável) concorrência interna.
Mas eu me adiantei um pouco...
Nesse evento ocorreu um seminário com uma degustação de 11 vinhos que pretendia mostrar a diferenciação das três subregiões chilenas: Andes, Costa e Entre Cordilheiras. Para essa parte do evento foram convidados basicamente sommeliers-chave, alguns enófilos e a mídia.
Enquanto eu aguardava minha vez para entrar na sala comecei a pensar nas pessoas que estavam lá, fora os sommeliers, é claro, pois é uma necessidade de suas profissões que eles conheçam e se atualizem sobre as novidades do setor. Eu estava pensando na mídia mesmo, assunto recorrente neste blog.
No entanto, desta vez não estava pensando nos colegas midiáticos para criticá-los, como vez por outra faço, eu estava pensando que somos poucos, que somos os mesmos. Há muitos anos. Temos os mesmos vícios, as mesmas apreciações e os mesmos desafetos e trabalhamos para uma meia dúzia de publicações, algumas ainda bem fortes, mas somos poucos.
Sim, nossos espaços são restritos e cada vez mais raros. E isso combinado com o fato de que muitos de nós não se incomodam de trabalhar para veículos de imprensa enquanto ganham dinheiro de produtores e importadores, me fez pensar que estamos num beco sem saída, ou - para ficar na metáfora da comida - trancados dentro de uma geladeira com comida estragando.
Um dos muitos entraves na comercialização de vinhos é a incapacidade de aumentar a base consumidora, de falar com novos públicos que - muitas pesquisas apontam - estão àvidos para saber mais sobre vinhos. E quem 'fala' com as pessoas senão a mídia?
Os eventos falam também, mas só são multiplicados no momento em que caem 'na boca do povo' e nestas épocas o que está caindo na boca do povo é que vinho faz bem pra saúde mas é caro, que vinho é bebida alcoólica portanto vicia e pode ser o vilão que irá desestruturar o trânsito, as famílias, o país.
Que vinho brasileiro é ruim e que importado é bom, que precisamos nos despir de preconceitos na frente dos produtores e depois - pelas costas - dizer que preferimos um Bordeaux (seja bom ou ruim, mas é Bordeaux certo?).
Trocando de taça
Quando entrei na sala, super bem organizada como é o padrão do local onde foi feito o evento, e olhei para a mesa com uns tantos enólogos das vinícolas chilenas, me perguntei se os brasileiros conseguiriam "um dia quem sabe" sentar-se numa mesa como aquela e apresentar seus vinhos em conjunto. Será?
Bem, é claro que cada um dos que falou tentou puxar a brasa para sua sardinha, como era de se esperar. É claro também que a concorrência entre alguns deles é feroz e direta, mas estavam lá. Estavam lá porque o Brasil é MUITO importante pra eles, porque nossas compras é que pagam eventos como esses, que precisam ser multiplicados pela mídia e pelos sommeliers para que mais vinhos sejam vendidos e a indústria fique ainda mais forte. É o ciclo virtuoso, um mecanismo que os brasileiros ainda não estão preparados para fazer operar.
Assim me ocorreu que essa combinação de mídia viciada e indústria não comprometida realmente não resulta em bons negócios. Sim, dá pra culpar a carga tributária, dá pra culpar o lobby cervejeiro, dá pra culpar a safra, as estradas ruins, o lobby sumermercadista. Dá pra culpar tudo isso. Mas o que dá para FAZER? Essa é a pergunta a ser feita. O que dá para fazer sem ficar medindo pernadas com seu vizinho de terreno como se a nossa produção vitícola ainda fosse coisa de 'mérica, mérica, mérica'?
O que dá para fazer para que exista espaço para todos?
Faço essa troca de taças pois estamos enfrentando uma crise feia, e vinho é artigo de luxo precisamente para quem a indústria necessita convencer a comprar sua garrafinha semanalmente.
A mídia está em crise, a Europa está em crise e por isso manda vinhos para cá a preços impensáveis 5 anos atrás, mas como a cotação do dólar subiu e nossos importadores querem seguir com seus altos lucros, estamos pagando cada dia mais caro por vinhos cada vez mais mequetrefes.
Enquanto isso a indústria brasileira vai à mingua, com alguns (poucos) se saindo bem - seja por conta de estruturas fortes de distribuição e marketing ou por terem pequenas produções e terem encontrado seu nicho no mercado - enquanto outros tantos vão mal, muito mal e se dedicando a um chororô digno de novela cucaracha. Mas sentar-se à mesa, fazer uma ação coletiva, ou peitar os grandes e comprar brigas importantes ainda são ações isoladas, das quais só escuto falar com muita discreção.
E discreção aqui não cabe muito. Quando um produto encalha na feira, vende quem grita mais alto e tem poder de negociação. Lei básica de mercado.
Precisamos pensar o vinho na garrafa, para que ele finalmente chegue até um número maior de taças.
Precisamos pensá-lo urgentemente e coletivamente.
Bebida para pensar!
Não sei exatamente porque esse local (que infelizmente não visito há muitos anos) me veio à memória hoje, mas é por conta dele que existe o título acima: uma taça para pensar.
Estive hoje num grande e importante evento anual dos vinhos chilenos no Brasil que, mais do que bons goles, me deu muito o que pensar.
Como todo enófilo sabe (e até mesmo o consumidor regular de vinho), o Chile tem muito poder nessa área da economia. O vinho para o Chile está entre os 5 principais produtos de exportação, o que não é dizer pouca coisa num país rico. Existem centenas de empresas de todos os tamanhos dedicadas a fazer desde vinhos industriais até ícones, passando por líquidos muito despretensiosos e chegando a néctares surpreendentes. Acredito que é exatamente assim que deve ser um bom país produtor do Novo Mundo: vários estilos de vinhos, vários preços e muita (e saudável) concorrência interna.
Mas eu me adiantei um pouco...
Nesse evento ocorreu um seminário com uma degustação de 11 vinhos que pretendia mostrar a diferenciação das três subregiões chilenas: Andes, Costa e Entre Cordilheiras. Para essa parte do evento foram convidados basicamente sommeliers-chave, alguns enófilos e a mídia.
Enquanto eu aguardava minha vez para entrar na sala comecei a pensar nas pessoas que estavam lá, fora os sommeliers, é claro, pois é uma necessidade de suas profissões que eles conheçam e se atualizem sobre as novidades do setor. Eu estava pensando na mídia mesmo, assunto recorrente neste blog.
No entanto, desta vez não estava pensando nos colegas midiáticos para criticá-los, como vez por outra faço, eu estava pensando que somos poucos, que somos os mesmos. Há muitos anos. Temos os mesmos vícios, as mesmas apreciações e os mesmos desafetos e trabalhamos para uma meia dúzia de publicações, algumas ainda bem fortes, mas somos poucos.
Sim, nossos espaços são restritos e cada vez mais raros. E isso combinado com o fato de que muitos de nós não se incomodam de trabalhar para veículos de imprensa enquanto ganham dinheiro de produtores e importadores, me fez pensar que estamos num beco sem saída, ou - para ficar na metáfora da comida - trancados dentro de uma geladeira com comida estragando.
Um dos muitos entraves na comercialização de vinhos é a incapacidade de aumentar a base consumidora, de falar com novos públicos que - muitas pesquisas apontam - estão àvidos para saber mais sobre vinhos. E quem 'fala' com as pessoas senão a mídia?
Os eventos falam também, mas só são multiplicados no momento em que caem 'na boca do povo' e nestas épocas o que está caindo na boca do povo é que vinho faz bem pra saúde mas é caro, que vinho é bebida alcoólica portanto vicia e pode ser o vilão que irá desestruturar o trânsito, as famílias, o país.
Que vinho brasileiro é ruim e que importado é bom, que precisamos nos despir de preconceitos na frente dos produtores e depois - pelas costas - dizer que preferimos um Bordeaux (seja bom ou ruim, mas é Bordeaux certo?).
Trocando de taça
Quando entrei na sala, super bem organizada como é o padrão do local onde foi feito o evento, e olhei para a mesa com uns tantos enólogos das vinícolas chilenas, me perguntei se os brasileiros conseguiriam "um dia quem sabe" sentar-se numa mesa como aquela e apresentar seus vinhos em conjunto. Será?
Bem, é claro que cada um dos que falou tentou puxar a brasa para sua sardinha, como era de se esperar. É claro também que a concorrência entre alguns deles é feroz e direta, mas estavam lá. Estavam lá porque o Brasil é MUITO importante pra eles, porque nossas compras é que pagam eventos como esses, que precisam ser multiplicados pela mídia e pelos sommeliers para que mais vinhos sejam vendidos e a indústria fique ainda mais forte. É o ciclo virtuoso, um mecanismo que os brasileiros ainda não estão preparados para fazer operar.
Assim me ocorreu que essa combinação de mídia viciada e indústria não comprometida realmente não resulta em bons negócios. Sim, dá pra culpar a carga tributária, dá pra culpar o lobby cervejeiro, dá pra culpar a safra, as estradas ruins, o lobby sumermercadista. Dá pra culpar tudo isso. Mas o que dá para FAZER? Essa é a pergunta a ser feita. O que dá para fazer sem ficar medindo pernadas com seu vizinho de terreno como se a nossa produção vitícola ainda fosse coisa de 'mérica, mérica, mérica'?
O que dá para fazer para que exista espaço para todos?
Faço essa troca de taças pois estamos enfrentando uma crise feia, e vinho é artigo de luxo precisamente para quem a indústria necessita convencer a comprar sua garrafinha semanalmente.
A mídia está em crise, a Europa está em crise e por isso manda vinhos para cá a preços impensáveis 5 anos atrás, mas como a cotação do dólar subiu e nossos importadores querem seguir com seus altos lucros, estamos pagando cada dia mais caro por vinhos cada vez mais mequetrefes.
Enquanto isso a indústria brasileira vai à mingua, com alguns (poucos) se saindo bem - seja por conta de estruturas fortes de distribuição e marketing ou por terem pequenas produções e terem encontrado seu nicho no mercado - enquanto outros tantos vão mal, muito mal e se dedicando a um chororô digno de novela cucaracha. Mas sentar-se à mesa, fazer uma ação coletiva, ou peitar os grandes e comprar brigas importantes ainda são ações isoladas, das quais só escuto falar com muita discreção.
E discreção aqui não cabe muito. Quando um produto encalha na feira, vende quem grita mais alto e tem poder de negociação. Lei básica de mercado.
Precisamos pensar o vinho na garrafa, para que ele finalmente chegue até um número maior de taças.
Precisamos pensá-lo urgentemente e coletivamente.
Bebida para pensar!
quinta-feira, 25 de julho de 2013
Vinho de Missa e outros néctares santificados
http://revistaadega.uol.com.br/Edicoes/52/artigo164342-1.asp
Texto publicado na revista ADEGA, alguns anos atrás.
Superando as diferenças entre as religiões, o fruto da videira se transforma para fazer parte de todos os rituais e crenças
por Sílvia Mascella Rosa
Mas nem só de lendas e disputas vivem os vinhos ligados à religião. Tratada como a mais sagrada das bebidas, o vinho tem participação fundamental em diversas religiões e, em muitos casos, é feito especialmente para as celebrações religiosas. Seria fácil dizer que tudo remete a Jesus Cristo na Santa Ceia, mas essa história é muito mais antiga e envolve ritos pagãos em que o vinho era ofertado aos deuses como presente ou sacrifício e bebido em rituais, fosse com o objetivo de celebrar ou de provocar um embaçamento dos sentidos que "favoreceria o encontro e a comunicação com os deuses".
Raízes Bíblicas
Foi entre os judeus que o vinho passou a ter uma presença mais sóbria ligada à religião. A Bíblia conta que Noé, ao descer da arca ao final do dilúvio, plantou uma videira, como um gesto simbólico de celebração da vida. Está no Talmud o seguinte preceito: "Farás da tua mesa um altar ao Senhor" e nessa mesa está sempre presente o vinho. "Essa tradição vem dos tempos bíblicos e o vinho, para nós, representa a alegria e a felicidade, assim é produto essencial em todas as nossas celebrações", explica o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista.
O vinho ao qual o rabino se refere não é um vinho qualquer, mas um que obedece às leis da kashrut (conjunto de leis alimentares baseada nos preceitos do livro de Levítico) e que determinam o que é kosher (aprovado para ser consumido pelo povo judeu).
Na semana do Carnaval, um grupo de rabinos estava na vinícola Valduga preparando equipamentos para a vinificação da segunda safra dos vinhos kosher da vinícola. O rigoroso processo é feito somente por judeus praticantes e a vinícola quase parou um setor da produção por quatro dias, pois alguns equipamentos, como os tanques onde os vinhos são estocados, tiveram que ser enchidos com água por 24 horas e esvaziados por três vezes.
O rabino Michel explicou que o kosher do vinho precisa ser observado por um judeu praticante para garantir que o produto não é produzido para rituais pagãos (como acontecia na antiguidade) e, sim, para consumo do povo judeu. "Existe também o vinho mevushal, que sofre um processo de pasteurização, pois isso definitivamente o separa daquele que poderia ser consumido em outros rituais que não as festas judaicas", completa o rabino.
Até o ano passado a Casa Valduga só preparava os vinhos não mevushal, porém, neste ano, eles também serão feitos para a comunidade. A diretora comercial da Valduga, Juciane Casagrande, conta que a empresa precisa contratar esses rabinos para o processo de kasherização todos os anos, pois a certificação deles é dada a cada safra. "Mas assim aproveitamos a safra das uvas e, com a presença deles, também preparamos o suco, que é naturalmente mevushal, pois precisa ser pasteurizado antes do engarrafamento", revela Juciane.
As regras do Alcorão
O suco de uva brasileiro (quando recebe a certificação halal) também atende às regras da comunidade islâmica, que não permite o consumo de nenhuma bebida alcoólica. "Entendemos que o vinho é bom para o corpo humano, mas entendemos que seus malefícios superam os benefícios, portanto ele é proibido pelo Alcorão", conta Dib Ahmad el Tarass, gestor do núcleo de desenvolvimento da Halal Brasil, escritório comercial especializado em certificação para produtos adequados ao povo islâmico.
Halal é a palavra árabe que significa lícito. O gestor da Halal Brasil explica que aqui o processo de certificação é inovador, pois está atento não somente ao que ditam as regras do islamismo, mas também às regras de segurança alimentar e de boas práticas industriais. "É como uma ISO 9000 que existe há mais de mil anos", brinca Dib Ahmad.
A verificação envolve desde laudos laboratoriais e análises físicoquímicas, até a observação do conjunto de práticas operacionais, para certificar que em nenhuma fase do processo industrial entram produtos que sejam haram (ilícitos), como, por exemplo, algum corante, conservante, estabilizante que contenha subprodutos de animais como o porco, não admitido pelo islamismo.
A primeira empresa brasileira a obter esse selo foi a Cooperativa Aurora, com seu suco Casa de Bento, em 2009, mas os brasileiros estão correndo atrás desse mercado que, segundo Dib Ahmad, movimentou, no mundo, 578 bilhões de dólares no ano passado só em alimentos e bebidas certificados. O Brasil, obviamente, quer sua fatia desse bolo e para isso vem participando das feiras de alimentos em Dubai, que neste ano reuniu cinco produtores de suco brasileiros.
Corpo e Sangue
Mais fáceis de agradar são, com certeza, os cristãos. Os evangélicos, que não permitem o consumo de bebidas alcoólicas argumentando o mesmo malefício que os islâmicos, servem suco de uva em suas celebrações da Santa Ceia e afirmam, como fazem os Adventistas, por exemplo, que o que Jesus bebeu não era vinho e, sim, suco.
Os católicos, por sua vez, são veementes ao afirmar que Jesus bebeu vinho. Uma das passagens mais importantes da Bíblia, em que os fiéis afirmam que Jesus começa a mostrar sua natureza sagrada, é a das Bodas de Caná onde, atendendo a um pedido de sua mãe, transforma água em vinho. Contudo, o grande momento do vinho na Bíblia é exatamente a Santa Ceia.
Desse episódio nasce a Eucaristia, que é o momento mais importante de toda a missa. "É nesse momento que o padre celebrante personifica o Cristo (in persona Christi) e repete as suas palavras sagradas que farão a transubstanciação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo", explica o padre Juarez Pedro de Castro, da Arquidiocese de São Paulo.
Para essa celebração é necessário um vinho específico, determinado pelas leis canônicas no Concílio de Trento em 1917 e revisadas em 1981. Segundo essas leis, o vinho deve ser extraído "do fruto da videira", ser natural e genuíno, isto é, não misturado com substâncias estranhas. "Já há muito tempo o vinho para a missa tem a graduação alcoólica alta, por dois motivos: o primeiro é que ele deve ser guardado na Sacristia, onde não há refrigeração, e o segundo é que ele é consumido aos poucos e, por isso, precisa ser mantido íntegro por mais tempo", conta o padre.
No Brasil, o mais famoso vinho de missa é o Canônico, produzido pela Salton há 70 anos, desde que um padre espanhol, de nome Franco, cuja paróquia ficava do outro lado da rua da vinícola em Bento Gonçalves, percebeu que não havia ali nenhum vinho específico para a missa. Ele foi então falar com um dos fundadores da vinícola (Nini Salton) para saber se a empresa poderia fazer esse vinho e, com o pedido aceito, o padre trouxe a "receita". Desde 1957, a empresa tem a autorização da Cúria Metropolitana para fazer esse vinho que, atualmente, atende a igrejas de todo o País, com produção média anual de 300 mil garrafas. O corte de uvas Moscato (50%), Saint Emilion (40%) e Isabel (10%) resulta em um vinho licoroso doce, com graduação alcoólica de 16 graus Lussac.
Ortodoxos
Os cristãos ortodoxos têm uma aproximação ainda maior com o vinho na missa e em outras celebrações. O sacristão da Catedral Ortodoxa de São Paulo explicou que, durante a Eucaristia, os fiéis recebem uma pequena colher de vinho, que veio do cálice consagrado onde o sacerdote misturou o pão e o vinho. Além disso, durante as cerimônias de casamento, os noivos tomam três goles de vinho cada um, da mesma taça, simbolizando o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Até mesmo no batismo, as crianças recebem uma quantidade mínima de vinho e pão.
Ao contrário do que se imagina, o vinho de missa não é tinto, mas rosado. "Normalmente, os paramentos da celebração (acessórios, toalhas) são claros ou brancos e, se for um vinho escuro, será fácil manchar", revela o enólogo Ricardo Chesini, cuja família produz um vinho para missa desde meados da década de 1980.
Sendo ou não religiosos, mas como apreciadores de bons vinhos em momentos felizes, vale a pena lembrar as palavras do encarregado da festa das Bodas de Caná, que recebeu o vinho recém-transformado por Jesus: "Todo mundo serve primeiro o vinho bom e quando os convidados já beberam bastante serve o menos bom. Tu guardaste o vinho bom até agora".
Texto publicado na revista ADEGA, alguns anos atrás.
Santos néctares
Superando as diferenças entre as religiões, o fruto da videira se transforma para fazer parte de todos os rituais e crenças
por Sílvia Mascella Rosa
" O anjo Lúcifer foi obrigado a deixar o Céu e a companhia de Deus por sua vaidade e egoísmo. Veio habitar a terra e tomou por morada o Monte Vesúvio. De seu reino de fogo, Lúcifer começou a destruir tudo à sua volta. Jesus, entristecido com essa visão, começou a chorar e suas lágrimas caíram sobre as lavas do vulcão. Dessas lágrimas vertidas sobre as lavas brotaram videiras e delas fez-se o vinho Lacryma Christi (Lágrima de Cristo)."
Esta lenda é somente uma das tantas relacionadas com o conhecido vinho produzido no sul da Itália desde tempos medievais.
A utilização do nome "Lacryma Christi" criou confusão no começo do século passado com os portugueses do Douro que produziam o Vinho do Porto branco. Eles passaram a utilizar a imagem de Cristo no rótulo e o nome Lacrima Christi. Depois de um longo processo, os portugueses foram impedidos de utilizar o nome completo e atualmente usam somente a imagem e a palavra Lacrima.
Raízes Bíblicas
Foi entre os judeus que o vinho passou a ter uma presença mais sóbria ligada à religião. A Bíblia conta que Noé, ao descer da arca ao final do dilúvio, plantou uma videira, como um gesto simbólico de celebração da vida. Está no Talmud o seguinte preceito: "Farás da tua mesa um altar ao Senhor" e nessa mesa está sempre presente o vinho. "Essa tradição vem dos tempos bíblicos e o vinho, para nós, representa a alegria e a felicidade, assim é produto essencial em todas as nossas celebrações", explica o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista.
O vinho ao qual o rabino se refere não é um vinho qualquer, mas um que obedece às leis da kashrut (conjunto de leis alimentares baseada nos preceitos do livro de Levítico) e que determinam o que é kosher (aprovado para ser consumido pelo povo judeu).
O rabino Michel explicou que o kosher do vinho precisa ser observado por um judeu praticante para garantir que o produto não é produzido para rituais pagãos (como acontecia na antiguidade) e, sim, para consumo do povo judeu. "Existe também o vinho mevushal, que sofre um processo de pasteurização, pois isso definitivamente o separa daquele que poderia ser consumido em outros rituais que não as festas judaicas", completa o rabino.
Até o ano passado a Casa Valduga só preparava os vinhos não mevushal, porém, neste ano, eles também serão feitos para a comunidade. A diretora comercial da Valduga, Juciane Casagrande, conta que a empresa precisa contratar esses rabinos para o processo de kasherização todos os anos, pois a certificação deles é dada a cada safra. "Mas assim aproveitamos a safra das uvas e, com a presença deles, também preparamos o suco, que é naturalmente mevushal, pois precisa ser pasteurizado antes do engarrafamento", revela Juciane.
As regras do Alcorão
O suco de uva brasileiro (quando recebe a certificação halal) também atende às regras da comunidade islâmica, que não permite o consumo de nenhuma bebida alcoólica. "Entendemos que o vinho é bom para o corpo humano, mas entendemos que seus malefícios superam os benefícios, portanto ele é proibido pelo Alcorão", conta Dib Ahmad el Tarass, gestor do núcleo de desenvolvimento da Halal Brasil, escritório comercial especializado em certificação para produtos adequados ao povo islâmico.
Halal é a palavra árabe que significa lícito. O gestor da Halal Brasil explica que aqui o processo de certificação é inovador, pois está atento não somente ao que ditam as regras do islamismo, mas também às regras de segurança alimentar e de boas práticas industriais. "É como uma ISO 9000 que existe há mais de mil anos", brinca Dib Ahmad.
Suco de uva brasileiro, certificado para consumo da comunidade islâmica, tenta ganhar espaço no mercado internacional participando de feiras, como a de Dubai. Já o vinho preparado para a Eucaristia possui tradição no Brasil, produzido para atender as necessidades da Igreja Católica
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A primeira empresa brasileira a obter esse selo foi a Cooperativa Aurora, com seu suco Casa de Bento, em 2009, mas os brasileiros estão correndo atrás desse mercado que, segundo Dib Ahmad, movimentou, no mundo, 578 bilhões de dólares no ano passado só em alimentos e bebidas certificados. O Brasil, obviamente, quer sua fatia desse bolo e para isso vem participando das feiras de alimentos em Dubai, que neste ano reuniu cinco produtores de suco brasileiros.
Corpo e Sangue
Mais fáceis de agradar são, com certeza, os cristãos. Os evangélicos, que não permitem o consumo de bebidas alcoólicas argumentando o mesmo malefício que os islâmicos, servem suco de uva em suas celebrações da Santa Ceia e afirmam, como fazem os Adventistas, por exemplo, que o que Jesus bebeu não era vinho e, sim, suco.
Os católicos, por sua vez, são veementes ao afirmar que Jesus bebeu vinho. Uma das passagens mais importantes da Bíblia, em que os fiéis afirmam que Jesus começa a mostrar sua natureza sagrada, é a das Bodas de Caná onde, atendendo a um pedido de sua mãe, transforma água em vinho. Contudo, o grande momento do vinho na Bíblia é exatamente a Santa Ceia.
Desse episódio nasce a Eucaristia, que é o momento mais importante de toda a missa. "É nesse momento que o padre celebrante personifica o Cristo (in persona Christi) e repete as suas palavras sagradas que farão a transubstanciação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo", explica o padre Juarez Pedro de Castro, da Arquidiocese de São Paulo.
Para essa celebração é necessário um vinho específico, determinado pelas leis canônicas no Concílio de Trento em 1917 e revisadas em 1981. Segundo essas leis, o vinho deve ser extraído "do fruto da videira", ser natural e genuíno, isto é, não misturado com substâncias estranhas. "Já há muito tempo o vinho para a missa tem a graduação alcoólica alta, por dois motivos: o primeiro é que ele deve ser guardado na Sacristia, onde não há refrigeração, e o segundo é que ele é consumido aos poucos e, por isso, precisa ser mantido íntegro por mais tempo", conta o padre.
No Brasil, o mais famoso vinho de missa é o Canônico, produzido pela Salton há 70 anos, desde que um padre espanhol, de nome Franco, cuja paróquia ficava do outro lado da rua da vinícola em Bento Gonçalves, percebeu que não havia ali nenhum vinho específico para a missa. Ele foi então falar com um dos fundadores da vinícola (Nini Salton) para saber se a empresa poderia fazer esse vinho e, com o pedido aceito, o padre trouxe a "receita". Desde 1957, a empresa tem a autorização da Cúria Metropolitana para fazer esse vinho que, atualmente, atende a igrejas de todo o País, com produção média anual de 300 mil garrafas. O corte de uvas Moscato (50%), Saint Emilion (40%) e Isabel (10%) resulta em um vinho licoroso doce, com graduação alcoólica de 16 graus Lussac.
Ortodoxos
Os cristãos ortodoxos têm uma aproximação ainda maior com o vinho na missa e em outras celebrações. O sacristão da Catedral Ortodoxa de São Paulo explicou que, durante a Eucaristia, os fiéis recebem uma pequena colher de vinho, que veio do cálice consagrado onde o sacerdote misturou o pão e o vinho. Além disso, durante as cerimônias de casamento, os noivos tomam três goles de vinho cada um, da mesma taça, simbolizando o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Até mesmo no batismo, as crianças recebem uma quantidade mínima de vinho e pão.
Ao contrário do que se imagina, o vinho de missa não é tinto, mas rosado. "Normalmente, os paramentos da celebração (acessórios, toalhas) são claros ou brancos e, se for um vinho escuro, será fácil manchar", revela o enólogo Ricardo Chesini, cuja família produz um vinho para missa desde meados da década de 1980.
Sendo ou não religiosos, mas como apreciadores de bons vinhos em momentos felizes, vale a pena lembrar as palavras do encarregado da festa das Bodas de Caná, que recebeu o vinho recém-transformado por Jesus: "Todo mundo serve primeiro o vinho bom e quando os convidados já beberam bastante serve o menos bom. Tu guardaste o vinho bom até agora".
sexta-feira, 5 de julho de 2013
O Melhor Vinho do Mundo
Vejam só leitores, na taça ao lado está o melhor vinho do mundo! Como eu sei disso? Eu sei porque eu estou dizendo, porque eu sou uma "formadora de opinião premiada", "renomada jornalista", blogueira, sommeliére, bartender, degustadora e isso tudo me qualifica não apenas para lhe dizer que a taça ao lado é do melhor vinho do mundo como também para dizer que você deverá prová-lo e apreciá-lo, senão você está de fora do clubinho!
Entendeu?
E não interessa se ele custa 12 dinheiros e você tem uma ideia de que isso talvez seja "muito barato" para um vinho de alta qualidade ou - ao contrário - se ele custa 1.200 dinheiros (o que para a maioria das pessoas normais pode parecer demais para uma garrafa de vinho) e que você deve fazer tudo ao seu alcance (como genuíno apreciador de vinhos) para ter esse dinheiro, comprar essa garrafa e beber esse que é melhor vinho do mundo.
Sim, estou sendo irônica. Para garantir é melhor dizer que estou sendo MUITO irônica. Esta semana está difícil, entre a péssima frase "Vinho bom é o que você gosta" e a igualmente idiota "Este é o melhor vinho do mundo" fica um abismo muitas vezes preenchido por uma infinidade de bobagens que assolaram a mídia nos últimos dias.
Como alguém pode se advogar saber qual é o melhor vinho do mundo? Como alguém pode ter bebido todos os vinhos do mundo nas safras atuais e antigas e dizer que esse acima é um deles? Como alguém pode fazer uma prova (paga por importadores, frequentada por gente que só bebe de graça) e sair afirmando que os vinhos provados lá estão entre os 5/10/22 melhores vinhos do mundo?
É muita besteira minha gente! É achar que todo mundo é idiota e está disposto a pagar por isso.
É rir na cara de quem tenta trabalhar sério, estudar, conhecer, viajar, avaliar sem amarras. De quem tenta fazer melhor todos os dias para que a informação passada (apesar de sempre com um viés pessoal) seja a mais clara e objetiva possível.
Apenas nesta semana eu li uma pesquisa de um americano que faz vinhos e precisava arranjar uma maneira de justificar o fato das pessoas não gostarem de seus vinhos. Ele afirmava 'cientificamente' que os "melhores" degustadores do mundo não dão notas iguais para os mesmos vinhos nem mesmo numa mesma degustação. Mas ora...é claro que não. Vamos discutir gosto, paladar, a variação de uma garrafa para outra, a temperatura, a percepção, o embuste de colocar vários vinhos iguais numa prova onde as pessoas pensam que estão bebendo coisas diferentes?
Dizia um filósofo grego que um homem vai todos os dias ao rio buscar água para beber, para ele o homem que vai ao rio todos os dias não é o mesmo de ontem, assim com o rio que corre em sua frente não é mais o mesmo de ontem.
Mudar é natural e necessário. O movimento faz parte da vida, a alteração das escolhas faz parte de um ser em evolução. O conhecimento faz evoluir, seja o paladar sejam as células cerebrais.
Também ouvi uma pessoa da mais alta ineptitude dizer numa rede social que fazia assinaturas de graça de uma revista só para jogá-la fora e demonstrar 'seu descontentamento'. Não tenho palavras para alguém assim, e essa pessoa se considera um alto conhecer dos meandros da imprensa.
Por fim, vejo informação comprada aos montes (e por muitos dinheiros) sendo passada adiante como se fosse verdade universal, vindo da boca de 'renomados' fulanos, 'reconhecidos' ciclanos, 'importantes' beltranos, além das fontes 'oficiais'. Informação que chega às pessoas que não têm como saber da veracidade de tudo isso, e que a única coisa que podem fazer é tentar acreditar naqueles que 'se dizem' da imprensa.
Imprensa essa de amigos bem pagos, de inimigos bem conhecidos, de vendidos inomináveis que tentam andar ao sabor da maré, sorrindo hoje, apunhalando amanhã e levatando a taça e dizendo: "Bebam! Este é o melhor vinho do mundo".
Que gente bouchonée...
Entendeu?
E não interessa se ele custa 12 dinheiros e você tem uma ideia de que isso talvez seja "muito barato" para um vinho de alta qualidade ou - ao contrário - se ele custa 1.200 dinheiros (o que para a maioria das pessoas normais pode parecer demais para uma garrafa de vinho) e que você deve fazer tudo ao seu alcance (como genuíno apreciador de vinhos) para ter esse dinheiro, comprar essa garrafa e beber esse que é melhor vinho do mundo.
Sim, estou sendo irônica. Para garantir é melhor dizer que estou sendo MUITO irônica. Esta semana está difícil, entre a péssima frase "Vinho bom é o que você gosta" e a igualmente idiota "Este é o melhor vinho do mundo" fica um abismo muitas vezes preenchido por uma infinidade de bobagens que assolaram a mídia nos últimos dias.
Como alguém pode se advogar saber qual é o melhor vinho do mundo? Como alguém pode ter bebido todos os vinhos do mundo nas safras atuais e antigas e dizer que esse acima é um deles? Como alguém pode fazer uma prova (paga por importadores, frequentada por gente que só bebe de graça) e sair afirmando que os vinhos provados lá estão entre os 5/10/22 melhores vinhos do mundo?
É muita besteira minha gente! É achar que todo mundo é idiota e está disposto a pagar por isso.
É rir na cara de quem tenta trabalhar sério, estudar, conhecer, viajar, avaliar sem amarras. De quem tenta fazer melhor todos os dias para que a informação passada (apesar de sempre com um viés pessoal) seja a mais clara e objetiva possível.
Apenas nesta semana eu li uma pesquisa de um americano que faz vinhos e precisava arranjar uma maneira de justificar o fato das pessoas não gostarem de seus vinhos. Ele afirmava 'cientificamente' que os "melhores" degustadores do mundo não dão notas iguais para os mesmos vinhos nem mesmo numa mesma degustação. Mas ora...é claro que não. Vamos discutir gosto, paladar, a variação de uma garrafa para outra, a temperatura, a percepção, o embuste de colocar vários vinhos iguais numa prova onde as pessoas pensam que estão bebendo coisas diferentes?
Dizia um filósofo grego que um homem vai todos os dias ao rio buscar água para beber, para ele o homem que vai ao rio todos os dias não é o mesmo de ontem, assim com o rio que corre em sua frente não é mais o mesmo de ontem.
Mudar é natural e necessário. O movimento faz parte da vida, a alteração das escolhas faz parte de um ser em evolução. O conhecimento faz evoluir, seja o paladar sejam as células cerebrais.
Também ouvi uma pessoa da mais alta ineptitude dizer numa rede social que fazia assinaturas de graça de uma revista só para jogá-la fora e demonstrar 'seu descontentamento'. Não tenho palavras para alguém assim, e essa pessoa se considera um alto conhecer dos meandros da imprensa.
Por fim, vejo informação comprada aos montes (e por muitos dinheiros) sendo passada adiante como se fosse verdade universal, vindo da boca de 'renomados' fulanos, 'reconhecidos' ciclanos, 'importantes' beltranos, além das fontes 'oficiais'. Informação que chega às pessoas que não têm como saber da veracidade de tudo isso, e que a única coisa que podem fazer é tentar acreditar naqueles que 'se dizem' da imprensa.
Imprensa essa de amigos bem pagos, de inimigos bem conhecidos, de vendidos inomináveis que tentam andar ao sabor da maré, sorrindo hoje, apunhalando amanhã e levatando a taça e dizendo: "Bebam! Este é o melhor vinho do mundo".
Que gente bouchonée...
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Terceira Edição do GUIA ADEGA VINHOS DO BRASIL
É com muito orgulho que escrevo para contar que acaba de ser lançada a terceira edição do GUIA ADEGA DE VINHOS DO BRASIL, com 82 vinícolas e 575 vinhos avaliados.
Eu, como degustadora de vinhos de ADEGA desde 2007 fico muito feliz com esse lançamento, pois ao participar dessas degustações para o Guia (todas elas feitas às cegas) percebi a evolução qualitativa de nossos produtos uma vez mais.
Não é fácil degustar tantos vinhos, não é fácil obter todas as informações em uma indústria que, em alguns aspectos, ainda se pauta pelo amadorismo e por algumas tradições que não combinam com as necessidades do mercado moderno, competitivo e tecnológico.
Não é fácil, acreditem, convidar os produtores para participar, mesmo que eles nada mais tenham que gastar do que o envio de 1 (uma, isso mesmo apenas UMA) garrafa de vinho. Muitos reclamam dos critérios de avaliação e acham que seus vinhos deveriam sempre ter as melhores pontuações (é natural, pois cada um deve acreditar que está fazendo o melhor que pode, mas irreal no universo dos produtores e dos produtos), outros dizem que não crêem que as garrafas enviadas por seus pares para a degustação do Guia sejam as mesmas que são vendidas para o consumidor final, por isso não querem "arriscar" seus produtos numa competição que eles entendem como desleal e outros, por fim, têm acordos comerciais e de cooperação (ainda que não às claras) com outras publicações e preferem ficar de fora para depois poderem criticar à vontade. Entendo que colocar-se à prova também não é fácil e dar a cara para bater no mercado aberto é muito complicado para muita gente que vive vidas comezinhas, pautadas por pequeninos sucessos e muito alarde.
Enfim, bancar um Guia não é uma tarefa fácil também. Pesquisar, escrever, degustar, imprimir e distribuir não são coisas simples num mercado tão sucateado, maltratado e muitas vezes escuso como o mercado editorial brasileiro. E é por isso que tenho orgulho de ter meu nome nas três edições desse Guia, que ainda não é perfeito, mas chegará lá. E chegará lá ao lado dos produtores que confiam no que fazem, que trabalham com isenção como eu, que colocam o produto à frente de seu ego de produtor, que acreditam que podemos errar algumas vezes, mas temos que seguir tentando acertar e aprender com nossos erros.
Um brinde ao vinho brasileiro!
Duas observações que acho pertinentes abaixo, para quem está apenas se aproximando desse mundo:
1- Uma degustação às cegas é aquela na qual os degustadores nada sabem a respeito do que vão degustar. No caso do Guia as degustações nos fornecem apenas o tipo de vinho, por exemplo: Merlot, Espumante Brut método Champenoise e assim por diante, nada mais. Acreditamos que isso nos afasta de qualquer pré-disposição de julgamento sobre regiões e produtores.
2- O jornalismo é um ramo das ciências sociais e humanas muito controverso. Conhecer, reportar, contar, explicar são naturais ao ser humano, assim como é natural que todas essas ações contenham em si o olhar de quem vê, que é, afinal, indissociável de quem conta.
Quando 'fazemos' jornalismo tentamos ao máximo nos separarmos de nossa visão pessoal e atendermos ao maior número possível de pessoas, mas é natural que em tudo o que fazemos a nossa experiência pessoal tenha algum nível de influência. Por isso é sempre importante para o jornalista sério a visão de vários lados de um mesmo tema, para que ele possa reportar o maior número possível de variações do que pretende explicar.
No jornalismo especializado (esportes, economia, enogastronomia entre outros) esse aporte pessoal pode ser ainda mais controverso, especialmente quando as pessoas envolvidas no processo decisório de divulgação da informação não têm nem a formação correta e nem a ética necessária para fazer o trabalho.
É ainda preciso lembrar que informação é moeda sim, seja nas empresas jornalísticas (que visam lucro), seja em nosso cotidiano e que não há como se separar totalmente de alguns critérios comerciais. Convém lembrar que o tripé que sustenta a imprensa é composto pelo conteúdo (que por ser de qualidade atrai os leitores), base de leitores (que confiam na publicação e decidem pagar por ela) e publicidade (que deseja fazer parte daquele produto que tem informação e leitores qualificados). E pensar nisso como um tripé é muito difícil para muita gente que acredita que a publicidade é deleutéria para as publicações. Que o fato de uma revista, jornal, rede de tv ou rádio ter muitos anunciantes ela está 'vendida'. Muito ao contrário, na maioria dos casos. O dinheiro desses anunciantes é o que garante uma boa dose de isenção, para que a publicação não tenha que se referir apenas aos poucos que garantem sua sobrevivência.
Como em tudo na vida, bom senso é necessário para que não se receba um produto apenas pela 'cara' do que ele vale e, muitas vezes, é preciso ter um olhar menos maniqueísta, deixando de ver tudo como apenas bom ou mau.
Para adquirir a terceira edição do Guia ADEGA Vinhos do Brasil você pode acessar o site: http://www.lojaadega.com.br
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A Estrada de Tijolos Verdeamarelos
Entre os mais de 400 expositores, 10% deles são vinícolas brasileiras.
Há muitos lançamentos e muitas novidades, não apenas entre os brasileiros, mas também entre os estrangeiros que já tem mercado cativo e entre aqueles que vem ao país para procurar um novo mercado.
Espera-se que seja um ano mais tranquilo pois, com a sombra da salvaguarda afastada no começo deste ano - através de um acordo entre todas as partes envolvidas, os produtores, importadores e comerciantes de vinhos podem tentar fazer o que precisam: conquistar clientes com qualidade e preços atraentes.
Em época de crise mundial e de inflação verdadeira (não a declarada por nosso governo) andando em pista de corrida olímpica, o que resta fazer é mesmo conquistar novos mercados e novos clientes. Trilhar novos caminhos.
Vou para a feira sempre com um pouco de frio na barriga, buscando descobrir o que há de novo entre os produtores brasileiros e encontrar amigos queridos.
Fico chateada, no entanto, pelo fato de que um dos efeitos da crise/salvaguarda, seja a menor participação das vinícolas no evento. Conversei com várias delas que não estarão presentes e me disseram que o custo para participar do evento é muito alto e o retorno para as vinícolas pequenas que seguem com problemas graves de distribuição não compensa o dinheiro dispendido.
Elas sentem sim, falta de estar nesse centro de divulgação que é a feira, mas precisam fazer outros investimentos mais importantes para a qualidade da produção e na infraestrutura de suas cantinas.
Cada um escolhe o caminho que quer trilhar, é óbvio, mas para mim que estou fisicamente afastada das zonas de produção do país, o fato deles estarem presentes em São Paulo facilita muito a minha vida e sentirei falta dos que não estão aqui.
Hoje (quarta-feira) a visitação é apenas para profissionais da área, mas quinta e sexta-feira o espaço abre também para consumidores finais. E aí está outro entrave que as vinícolas reclamam (e com razão) a feira deveria focar nos profissionais da área, abrindo de manhã (como fazem todas as grandes feiras do gênero no mundo) e fechando no meio da tarde, permitindo que sommeliers, maitres, donos de restaurantes, bares e lojas façam a visitação em horários alternativos aos seus de trabalho.
De mimha parte acho que deveria ser proibida a entrada de consumidores finais ou aberta somente um dia, especificamente para os consumidores, dando a possibilidade de que eles comprassem todos os produtos que as vinícolas quisessem vender. Também acho que o espaço deveria congregar as diferentes áreas participantes e promover um congresso ou forum de discussões para apresentação de trabalhos.
Mas enfim, sei que a feira é feita por uma empresa e que tem fins lucrativos, por isso algumas mudanças são difíceis, mas não impossíveis. Quem sabe assim exista até um barateamento de custos que permita que mais produtores participem do evento.
Quem quiser mais informações sobre a feira, acesso etc, é só acessar: www.expovinis.com.br
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Preocupações
Acredito que mesmo quem não é de São Paulo deve estar acompanhando a onda de violência que está tomando conta da cidade onde vivo.
Para ser bem correta, fico em dúvida se essa onda desgraçada nunca diminuiu e a mídia apenas deixou de falar no final do ano para não comprometer as compras e o 'espírito' natalino.
Mas vamos lá: São Paulo sempre foi uma cidade perigosa, isso não é novidade. Trinta anos atrás, quando eu era adolescente e comecei a estudar no centro da cidade, a maior preocupação de meus pais (e minha também) era poder voltar em segurança para casa utilizando o transporte público e andando por zonas notadamente complicadas da cidade.
Daí em diante sempre 'fiquei esperta'. Trabalhei e dirigi de madrugada durante mais de uma década e, confesso, conto nos dedos de uma mão as vezes que me senti ameaçada nesses tempos. Atenta, mas nunca com medo. A cidade, grande, enorme, parecia sob controle nas zonas não periféricas e de pobreza extrema da capital.
Como sabem, sou jornalista, assim em meu caminho as drogas sempre estiveram, desde os tempos de colégio. Nunca fui usuária, nem eventual. Nunca precisei de drogas para nada e nem tive curiosidade, pois observava os efeitos em alguns conhecidos e não achava que aquilo fosse 'bacana'.
Mas o objetivo aqui não é fazer apologia da 'caretice'. O meu objetivo é lançar um questionamento em razão do que tenho visto pelas ruas. E nem vou tocar no gravíssimo problema da cracolândia, que (infelizmente) destrói seus usuários com rapidez impressionante.
Dirijo aproximadamente 50 quilómetros para ir e voltar para a redação da revista onde atuo. É um caminho conhecido pela Marginal do Pinheiros, cruzando zonas consideradas nobres de SP. No entanto, tenho observado nos dias de calor, quando as pessoas dirigem de janelas abertas, que muitos motoristas estão conduzindo seus carros enquanto fumam cigarros de maconha. Em plena luz do dia.
Sim, isso mesmo. Esse fato começou a chamar a minha atenção há uns 3/4 meses.
Em paralelo vejo nas redes sociais apologias discretas ao consumo, dizendo que isso não é nada, que não causa problemas.
De novo, não vou entrar na 'caretice', mas tenho que perguntar: maconha não altera a atividade cerebral das pessoas? Não 'dá barato'? Meu pouco conhecimento de farmacologia me informa que sim, pois se não desse barato ninguém usaria, certo? E nem seria chamada de 'droga'.
(Um parêntese: se eu for pega fumando maconha e dirigindo meu carro, nada me acontece. Eu seria usuária e por isso não levaria nada mais que 'um pito' de um policial. Mas se eu for pega depois de tomar uma taça de vinho, pago multa de quase dois mil reais e perco o direito de dirigir por um ano, tendo que me submeter à reciclagem depois disso. Vamos falar de dois pesos e duas medidas?)
O que, parece-me, a maioria das pessoas não percebe é que seu consumo 'eventual' de uma 'maconha recreativa' não apenas altera sua atividade cerebral, queima neurônios e 'blá-blá-blá', como também (e principalmente do meu ponto de vista) favorece o narcotráfico, que favorece a violência, que estimula os jovens (já sem opções por conta da falta de educação de base e lazer ou cultura) a entrarem numa atividade de lucro fácil, de 'entretenimento', onde se sentem 'poderosos' sobre os 'mauricinhos' dependentes das drogas.
É um caminho triste, esse que eu tenho observado, jovens e adultos em seus carros modernos e caros, circulando por regiões nobres, fumando seus cigarros de maconha no trânsito da cidade, completamente alheios ao fato de que a criminalidade que tanto condenam e que os faz ter medo de ir para a balada (onde consomem mais drogas), seja causada por eles mesmos.
Do outro lado fico eu, observando isso tudo e com receio de ser pega em uma blitz e perder minha carteira por conta de ter participado de uma degustação de vinhos que (ironia das ironias) faz parte de meu 'ganha pão'.
Álcool também é droga, eu nunca me esqueço disso. Também altera a atividade cerebral e compromete nosso discernimento. Mas, bebidas alcoólicas são parte de uma indústria legal neste país, enquanto a produção e comercialização de drogas não é. E o consumo controlado de certos tipos de bebidas alcoólicas, em pequenas quantidades e por pessoas saudáveis, pode até diminuir o risco da ocorrência de algumas doenças.
Por outro lado, milhões de pessoas 'fumando um baseado' estão dando milhões de reais para um indústria de morte e destruição, que sustenta-se utilizando toda sorte de violência.
Até quando vamos fingir que não é conosco?Até que ponto podemos reclamar da violência sem perceber qual a nossa parte na geração dela? Até quando vamos eleger engraçadinhos que nada fazem pela educação, pela saúde, pela geração de emprego, deixando cada vez mais e mais pessoas à margem da sociedade? Até quando vamos achar que nossos erros são perdoáveis porque nós 'pagamos nossos impostos e contas em dia'?
Como disse no começo, este é um apenas um questionamento, uma indignação de quem vê sua cidade ser mal tratada por quem administra e por quem vive nela também, egoístas de ambos os lados.
Assim como são as mesmas pessoas que jogam lixo pela janela do carro as que reclamam das enchentes, que cortam árvores porque elas sujam os carros e depois dizem que não há 'permeabildade' no solo.
ACORDA GENTE! Nós também somos responsáveis por tudo isso.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Novo Presidente da ABE
Como eu já escrevi muitas vezes neste espaço, a Associação Brasileira de Enologia é uma entidade de classe que tem meu respeito e apreciação.
Trabalhando com questões difícies como a regulamentação da profissão - neste país onde todo mundo 'se acha' especialista em alguma coisa, e onde a classe trabalhadora é extremamente desorganizada - em seus mais de 30 anos a ABE conseguiu ganhar algumas batalhas em variadas frentes, e está vencendo, inclusive, essa da regulamentação da profissão.
No último mês de dezembro houve a eleição para Presidente e para os novos diretores da entidade (que começa a trabalhar neste mês de janeiro). Na foto acima vocês vêem à direita o presidente que deixou o cargo, enólogo Christian Bernardi da Winepark e à esquerda o enólogo que assumiu o cargo, Luciano Vian, da vinícola Don Giovanni.
Eu conheci o Luciano há vários anos, quando nos sentamos lado-a-lado em um concurso. Nossas opiniões se chocaram (e continuam se chocando...he he he), mas logo percebemos que apreciamos esse embate de ideias e que, mais do que antagônicas, nossas visões são complementares. Daí em diante sempre apreciamos poder desgustar e falar de vinhos quando tenho oportunidade (e a sorte) de estar no sul. Felizmente tive o privilégio de estar em sua companhia na recente viagem à Mendoza, onde ele representou os enólogos brasileiro no concurso Malbec al Mundo.
Luciano tem 40 anos, é formado em enologia e está estudando administração de empresas. É casado com uma diretora de escola e construiu sua casa na mesma região onde trabalha, no novíssimo município de Pinto Bandeira, local de origem das uvas de alguns dos melhores espumantes nacionais. E Luciano é, pessoalmente, responsável por alguns deles.
Natural de Guaporé, também na Serra Gaúcha, estudou em Bento Gonçalves e começou quase 'um guri' na Don Giovanni, onde está há mais de 20 anos.
Hoje é "diretor que carrega caixa", um cargo que os bons enólogos entendem e apreciam, ou seja não apenas eles tem decisões para tomar que irão afetar o fluxo da empresa, como também fazem a parte do trabalho pesado quando é tempo de fazer os vinhos, afinal enólogo que não quer 'sujar as mãos' está na profissão errada. E quem faz espumantes não para, principalmente numa vinícola como a Don Giovanni, de produção quase artesanal, acompanhada de perto pelo proprietário e enólogo Ayrton Giovannini.
Apaixonado por espumantes e por motocicletas, Luciano não dispensa as tradições do estado em que nasceu e é fiel ao churrasco, ao futebol e à boa música. Na Don Giovanni é responsável pelos espumantes que obtiveram maior pontuação nas duas edições do Guia ADEGA de Vinhos do Brasil, o Don Giovanni Ouro e o novo Dona Bita (em homenagem à matriarca da família dona Beatriz Dreher Giovannini).
Desejo que Luciano tenha disposição e inspiração para fazer um bom trabalho na ABE, e que tenha o suporte que necessita da nova diretoria, aproveitando-se da sabedoria daqueles que já foram presidentes e continuam atuantes.
Parabéns Luciano!
Abaixo a nova diretoria eleita. Muita gente jovem e competente chegando!
Excelentes brindes à eles!
DIRETORIA ABE - GESTÃO 2013
Presidente: Luciano Vian
Vice-Presidente: Leocir Bottega
1° Tesoureiro: Dario Crespi
2° Tesoureiro: Gabriel Carissimi
1º Secretário: Dirceu Scottá
2ª Secretária: Joice Seidenfus
Diretor Social: Christian Bernardi
Diretores de Eventos: Juliano Perin e André Luiz Faria Peres Júnior
Diretores de Degustação: Gilberto Simonaggio e Daniel Salvador
Diretora Cultural: Antonio Czarnobay
Diretores Técnicos em Viticultura: Carlos Abarzúa e João Carlos Taffarel
Diretores Técnicos em Enologia: Edegar Scortegagna e Samuel Cervi
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Retrospectiva 2012
Cada vez que vejo alguém sinceramente religioso, cada vez que observo uma manifestação de fé numa pessoa, tenho um fio triste de inveja que me percorre.
O passar dos anos tem me feito ainda mais cética e mais consciente dessa 'inveja branca' de quem 'acredita'. Eu gostaria de ter o conforto da religião, mas não tenho.
Este ano que se encerra foi para mim mais uma demonstração de que quase tudo na vida é movido por interesses econômicos ou favores pessoais - o que não raro dá no mesmo.
Foi um ano de altos e baixos e em anos assim a minha visão (crença talvez? que ironia!) de que escolhemos fazer o bem (ou o mal) por conta de nossa natureza sem que isso seja capaz de influenciar o curso das coisas - ao menos no aqui e no agora - é correta.
Eu escolhi (e continuarei escolhendo) fazer o bem. Continuarei reportando, escutando e fazendo o possível para me comportar com a máxima correção, na minha profissão e fora dela. Mas confesso que o que vejo ao meu redor não é nada disso.
Vejo corrupção em variadas formas, vejo desamor aplicado entre familiares, entre amigos, com animais e até mesmo com os anônimos que cruzam nossas vidas.
Vejo favorecimentos em cadeia e isso gera reações cujos resultados depois ninguém parece entender.
Vejo 'os poderosos' em pequena e grande escala tratando os outros como se não houvesse amanhã e seus interesses pessoais estivessem acima de toda e qualquer ética.
Não acredito que haja 'salvação' para nada disso e cada dia menos desejo me meter nessas disputas.
Infelizmente, a minha realidade profissional me faz estar junto de muitas disputas e a presenciar atos, conversas e comportamentos que me entristecem e me colocam no oposto do espectro da fé.
O filósofo Aristóteles disse que "O homem é por natureza um ser social", mas não se prolongou sobre como ser 'sociável' numa sociedade conturbada onde, nas palavras de outro filósofo: "O homem é o lobo do homem". Muitas vezes eu me canso de ser um ser social, sociável ou coisa que o valha.
Recebi um prêmio neste ano, e esse simples evento me desencadeou uma série de considerações que me deixaram boquiaberta.
Em princípio achei que não era merecedora da honraria, mas logo compreendi que ser homenageada por pessoas que você admira é um privilégio. Depois vi as manifestações de alegria sincera e não sincera de meus pares. É difícil precisar se é mais estranho quem lhe cumprimenta por educação e por pensar que não 'deve se opor' a você ou quem simplesmente finge que não viu.
Eu, provavelmente como pessoa, não preciso de nenhum desses dois estilos de gente em minha vida. Mas sou obrigada a conviver com ambos.
A premiação também lhe dá um senso renovado de responsabilidade, não compartilhável com quem nunca passou por isso ou com quem sente inveja ou medo do que alguém (ha ha ha!) 'premiado' possa fazer.
Acredito numa coisa: que tudo passa, que tudo é transitório. Então por alguns instantes agradáveis e bem vindos para o ego, eu fui homenageada. Mas amanhã será outra pessoa, e depois outra e assim por diante. Nenhuma realização humana é para sempre, por isso não entendo a inveja e o cinismo que corroeram muita gente próxima a mim neste ano.
Outra coisa na qual acredito é que 'o mundo gira a lusitana roda', ou seja praticamente tudo o que jogamos para o mundo acaba por voltar para nós, quer percebamos ou não, assim nossas atitudes (boas ou más) retornarão para nossas realidades. É óbvio que não é 'olho por olho, dente por dente', como dizia a pena de Talião, mas é quase isso. O que parece iludir as pessoas é a sua não percepção de que não é o 'tapa na cara' que volta, mas a agressão cometida de alguma forma.
Meu marido diz que eu levo as coisas todas para o lado pessoal. Ele está certo. Eu me chateio, eu fico magoada, eu reajo mal a algumas coisas e, infelizmente, algumas (poucas, felizmente) vezes eu desejo reagir MUITO mal.
Ou seja, viver não é ter fé que as coisas vão dar certo. Viver é aprendizado, é conhecimento, é observação, é superação. É 'não reação' muitas vezes, um aprendizado complicado.
O inefável nessa questão, ao menos para mim, não é nenhum ser supremo ou celestial. É o amor "que não obedece a dicionários ou a regulamentos vários", como disse o poeta.
O amor sustenta, alegra, consola, agrega. E não estou falando apenas de amor por outros seres (pessoas ou animais) estou falando de ter olhos de amor para com a natureza, a terra que nos sustenta e nos suporta, para com as coisas que fazemos e criamos, para com a vida em geral, frágil e poderosa ao mesmo tempo.
Amei estar na Itália e na Argentina neste ano. Amei levar o 'Vinho Verde' para muitas cidades do interior de São Paulo, amei participar do Carnaval do vinho em Porto Alegre e conhecer novas vinícolas pelo país. Amei poder editar uma revista inteira, do índice ao café e a conta. Amei e sofri nos desafios.
Amei e sofri ao me deparar com a pessoa que desejo (e posso) ser mas que ainda não sou, e que precisa de ajuda e atenção. O mundo gira a lusitana roda.
Amei ter amigos próximos e distantes e de alguma forma poder me relacionar com pessoas que aprecio de forma mais aberta.
Amei poder celebrar os 50 anos de meu marido e os 70 de minha mãe, poder passar um ano desfrutando de saúde e disposição que me permitiram honrar meus compromissos.
Senti as perdas de gente inteligente que nossa nação sofreu, senti o sofrimento de gente amiga doente e senti que muitas vezes não fui capaz de ajudar.
Mas há muito mais para ser feito, há muito pelo que lutar para manter a vida e poder desfrutá-la com a consciência limpa e leve.
Há um novo ano pela frente, uma nova safra, novos amigos, novos vinhos, novas edições de revistas, novos desafios para enfrentrar.
Não acredito que faça diferença no calendário do universo a passagem de 31 de dezembro para 1o de janeiro. Mas acredito SIM que nossos desejos e anseios tem o poder de 'limpar o ar' para os novos dias e com eles me alinho, para que sejamos melhores, mais honestos, mais éticos, mais bondosos em 2013!
Feliz Ano Novo e excelentes brindes!
Mendoza!!! - Parte 2
Nós, o grupo de degustadores estrangeiros, fomos levados para um agradável e informal almoço na casa de hóspedes da vinícola Terrazas de los Andes, que pertence ao poderoso grupo internacional LVMH. É nesse mesmo local que é produzida uma parte dos espumantes da Chandon argentina, que - diferentemente do Brasil - porduz por lá seus espumantes pelo método tradicional. Tive o provilégio de conhecer o chef de cave da empresa, que está lá há mais de 20 anos.
A casa abriga um restaurante e lindos quartos que funcionam como uma pousada de luxo, em meio aos belos jardins e a paisagem sempre imponente da cordilheira. Não é à toa que o nome da vinícola é 'Terraço dos Andes'.
Saindo da programação oficial eu havia planejado daqui do Brasil uma visita à bodega Catena Zapata.
Vamos dizer que não ir à Catena Zapata quando em Mendoza é o equivalente a não ir à Miolo quando no Vale dos Vinhedos, ou não assistir a um show de tango quando em Buenos Aires...enfim, vocês entenderam a comparação.
Para minha alegria, o enólogo Luciano Vian resolveu me acompanhar na visita, assim na ensolarada tarde da sexta-feira, chegamos ao distinto prédio que abriga a vinícola fundada do Nicolás Catena.
Sua arquitetura foi inspirada numa pirâmide latinoamericana e sua parte interna é realmente impressionante, com o maciço de pedra se sobrepondo a abrindo vãos onde a luz intensa da região penetra e desenha ângulos.
Nas altas escadas que levam desde o subsolo onde fomos recebidos pelos enólogos na sala de degustação (que por sua vez dá vista à sala de barricas em forma de meia lua) até o topo da pirâmide de onde se avistam os parreirais e a cordilheira, toda a arquitetura é de volumes, vazios e luz.
Impressiona, mas não sei se acho bonita, confesso com absoluta modéstia.
Degustamos alguns dos mais importantes vinhos dessa bodega que se transformou num ícone argentino, desde que o fundador se inspirou no trabalho feita na Califórnia e resolveu subverter o que - até então - era comum na região. A Catena trabalha com altos padrões de qualidade e com um marketing também poderoso, assim colhe os ricos frutos do que cultiva com cuidado.
Aproveito para fazer uma propaganda pessoal aqui: quem quiser ler um pouco mais sobre Laura Catena, filha do fundador e atual administradora da vinícola, é só comprar a edição deste mês da revista SABORES, onde o enófilo Guilherme Velloso escreveu um belo perfil dela.
A paisagem de tirar o fôlego (acima) só é possível graças ao que ocorre abaixo, a irrigação constante dos vinhedos, por gotejamento, numa estrutura complexa e eficiente que domina discretamente a paisagem.
De volta à cidade de Mendoza, tivemos duas horas de descanso para fazermos as malas e nos prepararmos para a festa de premiação.
Na foto abaixo estamos, da esquerda para a direita, Luciano Vian enólogo brasileiro, Mariana jornalista chilena, Alejandro enólogo uruguaio, Estela presidente da associação dos enólogos do Uruguai, Alfonso enólogo chileno e eu.
Na mesa que ocupamos estavam também os presidente da organização dos enólogos da Argentina, Ricardo Godoy (ao lado de Luciano) e a presidente da OIV, Claudia Quini (ao lado de seu marido de gravata amarela).
Nos intervalos da premiação e durante todo o jantar, um grupo de bailarinos do corpo de baile da cidade de Mendoza mostrou um pouco das tradições do país, traduzidas pelo tango...
...pelo bailado criollo muito semelhante às danças típicas gaúchas...
...numa demonstração emocionante da preservação e apreciação interna da cultura do país.
Confesso que nesse ponto os argentinos são extremamente mais orgulhosos do que nós brasileiros, que parecemos sempre prontos a assimilar e assumir outras culturas que estão 'na moda'.
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