Colheita 2016

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Seja bem-vindo! E que nunca nos falte o pão, o vinho e a saúde e alegria para compartilhar!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Vamos a la playa?

O evento aconteceu há algum tempo mas eu - no meio dessa loucura dos seminários do Vinho Verde, de Expovinis e outras coisas - não tinha tido tempo de contar até agora para vocês.
Estive em Santos (litoral sul de São Paulo - cidade fundada por Brás Cubas, o vinhateiro português que trouxe as primeiras mudas de vitis para o país ainda no século XVI) para uma degustação harmonizada dos vinhos do Grupo Decima no restaurante Guaiaó, junto com o enólogo Alejandro Cardozo.
Quem me convidou foi Adriana M.Travesso, diretora do Grupo Decima que, para quem não sabe, também produz os vinhos com a marca Piagentini e todos aqueles vinhos de uso culinário (Izidro) que vemos em todas as boas cozinhas do país.
Fazer um 'bate-e-volta' até Santos foi divertido, mas o melhor de tudo foi o 'bate-papo' com Alejandro e com Adriana durante a viagem e depois no decorrer da degustação.
"Os vinhos da linha Decima precisavam ser apresentados em separado do que é o restante da empresa pois, sendo muito antiga e tradicional com vinhos de mesa, o público que consome vinhos finos colocava o preconceito na frente da marca e tinha muita dificuldade de provar as novidades" contou Adriana, dizendo que até mesmo a escolha dos locais para revender os vinhos teve que ser reestudada e reestruturada. O restaurante para o qual nós nos dirigíamos, o Guaiaó, estava para ser um dos novos representantes da marca, por estar alinhado com o estilo dos vinhos e com as novas ideias de comercialização.
O que veio daí em diante foram só boas surpresas, capitaneadas pelo talento de Alejandro (uruguaio de nascimento mas brasileiro por adoção) e pela equipe do restaurante, representada pelo jovem sócio André (os três na foto acima com o enólogo no meio).
A equipe da cozinha preparou vários de seus pratos em versões mini, para que pudéssemos provar um tipo de comida com cada um dos vinhos.
Para acompanhar o Chardonnay da linha Toro (linha de entrada da empresa, um demi-sec) foi servido o simpático caldeirão com a mini-cenoura, que funcionava como colher para pegar o cremoso iogurte com castanhas, rapadura, brotos e ervas e flores.
 Para acompanhar o Prosecco, que eu considero um dos melhores representantes da uva Glera no Brasil, foi servido o 'tomate, tomate, tomate', uma combinação de tomate cereja recheado com queijo de cabra, gaspacho transparente de tomate verde, sementes de tomate, mel e manjericão.
 Com o delicioso (mesmo!) espumante brut, que leva 40% de Chardonnay e de Riesling, mais 20% de Viognier fermentado em barrica, foi servido um carpaccio de melancia com vinagrete de Jerez e pinolis.
 Para o brut rosé (60% de Pinot e 40% de Riesling) a surpresa ficou por conta das vierias marinadas em azeite de castanhas, purê de cará com sal de cabernet sauvignon e redução de maracujá. Combinação tão irrestível que...

 ...quando terminou a degustação eu pedi uma porção para mim, que veio linda como na foto abaixo.
Depois do rosé veio o brut clássico 2008, com uvas Chardonnay fermentadas em barrica e um corte de Viognier. Para toda sua intensidade e volume de boca, a pedida foi o polvo grelhado com molho bisque, abobrinha, passas e brie.
Para acompanhar os três tintos, o Merlot Toro (que também é demi-sec e pertence à linha de entrada da empresa), o Decima Gran Reserva 2005 e o Decima Tannat, o restaurante surpreendeu novamente, com um cupim ao molho roti, com creme de alho poró e cogumelos diversos...
 ...jarret de vitela com batata, batata doce e mandioquinha assadas no sal grosso...
 (abaixo outra imagem do cupim, para vocês - leitores - babarem um pouco pensando na harmonização com um Tannat delicado e frutado)
 ...e por fim a costelinha de porco ao molho shoyu, acompanhada de canjiquinha com shimeji, pétalas de cebola com extrato de cerveja e brotos. Este último prato foi excelente com o Gran Reserva, uma dessas combinações que faz a gente ficar feliz por estar vivo, sabe?
Sair da cidade de São Paulo bem no meio da semana, provar excelentes vinhos na companhia do enólogo e da dona de uma empresa que acredita no potencial dos vinhos brasileiros, e ainda encontrar um restaurante que faz comida brasileira de forma mais sofisticada sem perder o sabor e o carinho é um desses presentes que a minha profissão me dá de vez em quando.
Por isso, para quem ficou curioso (faminto e sedento também) e quer saber mais, seguem os links:  www.vinhosdecima.com.br e www.guiaiao.com.br

terça-feira, 8 de maio de 2012

Para onde o vinho leva 3

No final da semana passada fui até a cidade de Guaratinguetá (fica a quase 200 km de São Paulo na direção do Rio de Janeiro) bem perto da cidade de Aparecida, na beira da Rodovia Dutra.
Lá ocorreram quatro palestras sobre o Vinho Verde, nas super agradáveis instalações do SENAC que, mesmo não ofertando cursos na área de alimentos e bebidas, se dispôs a sediar esse evento sabendo das necessidades da região.
A verdade é que o interesse do público e o acolhimento que tive foram impressionantes e ouso dizer que essas palestras estão entre as mais agradáveis dentre as 14 que já fiz até agora.
O serviço de vinhos impecável ficou por conta da equipe de uma loja e restaurante da vizinha cidade de Cunha, uma vez que a pequena Guaratinguetá não tem um serviço como esse e Cunha - que é mais turística - tem.
 Como sempre faço, nas horas de folga fui conhecer a Catedral e o Mercado Municipal e desta vez a surpresa foi grande. A cidade de Guaratinguetá é um centro de peregrinação, não apenas por estar muito próxima de Aparecida, mas principalmente pelo fato de ser a cidade onde nasceu e cresceu o primeiro santo brasileiro, Frei Galvão. A igreja matriz é, também, a igreja onde ele rezou a sua primeira missa após a ordenação.
 Consagrada a Santo Antonio a igreja é de uma beleza ímpar, muito bem cuidada e com um acervo histórico impressionante. Nada de figuras de santos pintadas como se fossem artigos vindos do Paraguai, e sim um cuidado enorme com peças que fazem jus à arte da santeria brasileira.


 Descendo a rua em frente da matriz chega-se ao Mercado Municipal que, apesar de antigo, não foi conservado com sua estrutura externa original.



 Adorei as barracas de fumo, cachimbos e de ervas que auxiliam a se livrar do 'vicil' de cigarro...
 ...isso sem contar o urinol esmaltado, uma peça verdadeiramente irresistível...
Ainda no centro da cidade, a recém-reformada estação de trem perdeu a função primordial (embora o trem ainda passe ali atrás), mas o charme continua o mesmo, e na praça em frente dela fica uma loja que vende vinhos diretamente da barrica, nos mais variados recipientes. Claro que são todos vinhos de mesa.


 A paisagem da janela do hotel mostra, no horizonte, as montanhas onde ficam cidades como Campos do Jordão e as divisas de outros dois estados (Rio de Janeiro e Minas Gerais).
Mas a cidade, calma e cheia de rotatórias fielmente respeitadas pelos moradores, é cheia de pequenos charmes, como a via férrea que cruza o centro, o casario em parte preservado, e um pé na modernidade, representado pela escola de pilotos, que prepara profissionais para todo o país.
 Adorei estar em Guaratinguetá, a penúltima cidade onde fui com o seminário do Vinho Verde (a próxima será Sorocaba, no final deste mês), e não resisti a colocar aqui a imagem deste anjo com rosto um tanto irônico e um tanto galã, que adornava os pés de um nicho na catedral.
Só para lembrar que a gente não deve levar as coisas tão a sério...

domingo, 6 de maio de 2012

Vamos almoçar na Virada Cultural?

A banda Premeditando o Breque tem uma das melhores músicas que falam sobre a cidade de São Paulo, e ela começa assim: "É sempre lindo andar, na cidade de São Paulo (de São Paulo), o clima engana, a vida é grana em São Paulo"...

É uma visão bem humorada dos defeitos, e do charme que existe por detrás desses defeitos.
Pois bem, hoje domingo ensolarado de outono, o clima não enganou, ajudou. E, a bem da verdade, foi "lindo"- ao estilo paulista- andar na cidade de São Paulo.

Para quem não sabe, desde ontem à tarde e até o final do dia de hoje está acontecendo a 'Virada Cultural', uma intensa programação que inclui todas as artes com atividades gratuitas e na maior parte dos casos em locais públicos e abertos, que aproximam a população dos artistas, músicos, atores, mágicos, palhaços e toda sorte de profissionais (e amadores) que fazem a vida cultural da cidade ser uma das mais interessantes do país.
(atenção para a foto: enquanto as pessoas andam o morador na janela fotografa as pessoas)

Mas neste ano a virada teve uma novidade. A via elevada 'Costa e Silva', conhecida por nós como 'minhocão', que liga uma parte da zona oeste da cidade ao centro (e fica normalmente fechada aos domingos para dar um pouco de silêncio aos moradores cujas casas ficam ao lado dela) recebeu algumas dezenas de barracas de comida, de artesanato e até mesmo um DJ que tocava pop/hip hop de Portugal (patrocinado pelo energético red bull).

O detalhe mais importante é que não foram quaisquer barracas de comida. Foi o movimento 'chefs na rua' que trouxe para cima do minhocão as barracas de importantes cozinheiros da cidade, com pratos de suas culinárias sofisticadas em releituras que podiam ser comidas em pé e pagas sem pesar no bolso (a maior parte dos pratos/aperitivos/doces custava entre 5 e 15 reais).
Por conta disso, milhares de paulistanos deixaram seus carros longe, caminharam sobre a via na qual passam apenas em seus carros, e foram em busca de alimento...
Que tal convidar milhares de paulistanos para um almoço na lage? Fica assim, como nas próximas fotos...




 

Os chefs de cozinha e seus ajudantes provavelmente trabalharam muito mais do que quando estão com suas casas cheias, mesmo que as opções de pratos fossem muito menos variadas. Fiquei sabendo que de madrugada houve até tumulto, quando começou a distribuição da galinhada feita pela equipe do chef Alex Atala...
 Para quem teve coragem de enfrentar as enormes filas (uma para pagar e outra para pegar a comida), havia uma variedade de coisas muito diferenciadas, desde comida japonesa, passando pelas arepas venezuelanas...
 ...comida peruana do chef Checho Gonzales...
 ...guiozas...
 ...a barraca da chef Paula Labaki tinha sanduíche de pernil da arábias...
 ...a do chef Luiz Emanuel tinha steak tartare com batatas rústicas...
 ...e a do Bar da Dona Onça tinha puchero...
 ...o casal abaixo se preparava para comer costelinha de porco com milho cozido, enquanto outros já saboreavam um café expresso Illy e doces especiais.
Eu, que acabei de chegar de uma cidade bem pequena (Guaratinguetá) vinha me perguntando o por quê de viver numa cidade como São Paulo. Bem, o dia de hoje talvez seja uma das respostas, vinda diretamente de um momento no qual a realidade se inverte e o ponto de vista muda, literalmente.
 

 

 

 O que há, afinal, nesta cidade que une tantos povos diferentes, preferências tão diversas (na foto abaixo não são doces e sim sabonetes) e onde tantas realidades convivem?
Sim, é uma cidade dura, feia, cruel muitas vezes. Mas é também uma cidade viva, cheia de surpresas, que não descansa nem para pensar em si mesma, mas que encontra espaço para meditar no meio do asfalto.

 É uma cidade que consegue fazer de seus moradores anônimos, turistas por um dia, fotografando, comendo e bebendo a cidade que os nutre...
 ...é uma cidade que nos iguala e nos separa, mudando sempre nosso caminho e - uma vez ou outra - nossa perspectiva e direção!
E para quem ficou curioso para saber o que eu comi, a resposta é bem ao estilo paulistano: não consegui comer nada, embora minhas expectativas fossem altas. Tão altas que em minha mochila havia meia garrafa de vinho, pronta para ser aberta.
Aliás, não havia venda de bebida alcoólica, apenas água, refrigerante e energético. Teria sido uma ótima ideia ter por lá aquele carrinho que o Ibravin teve no carnaval de Porto Alegre, vendendo espumante em taças. Quem sabe alguém não usa essa ideia no ano que vem?
Ficar com fome não fiquei, claro. Logo no começo do elevado fica uma das lanchonetes mais típicas de São Paulo, o Ponto Chic, onde o sanduíche Bauru foi inventado na década de 1930, e foi exatamente lá  que comemos. O Bauru inventado lá, aliás, é bem diferente do que existe no restante do Brasil. É feito com rosbife, uma mistura de queijos derretidos na chapa, fatias de pepino em conserva e tomates, num pão francês. Verdadeira cara de São Paulo!.


terça-feira, 1 de maio de 2012

Dia de luto

Hoje para mim não é dia de comemoração. Hoje para mim não é feriado. Hoje é dia de luto.
No Brasil enquanto as centrais sindicais oferecem 'pão e circo' para centenas de milhares de trabalhadores mal treinados e mal remunerados, no restante do mundo (que está ciente de crise séria que nos assola) é dia de protesto, de passeatas.
Pão e circo para os brasileiros, que continuam protestanto pelo 'bordeaux nosso de cada dia', que continuam trabalhando por migalhas e favores, que continuam desmerecendo suas profissões para poderem ficar de bem com poderosos, com privilégios e outros luxos.
Salário e direitos, para que? Para quem?
A política do 'cada um para si' cobra seu preço de todos nós algum dia. Mas quem a sente primeiro somos nós, que teimamos em trabalhar sério, que teimamos em acreditar que para exercer bem qualquer profissão é necessário não apenas inteligência e bom senso como também treinamento correto.
Ando triste com as poucas chances para os profissionais experientes, com as poucas chances para quem quer (e precisa) começar a trabalhar.
Ando triste com os favorecimentos ilícitos que só fazem manter a bandalheira e a rede de mentiras no ar. Uma das coisas mais sérias quando somos professores é que a 'cola' é sempre vista, sempre. O professor é quem escolhe deixar passar.
Para mim, combinar as profissões de jornalista, sommeliére e professora é ver muito, mas muito mais do que eu gostaria em variados lugares e ter que me calar muitas vezes. Mentir não, pois não está em minha natureza, mas calar sim, pois ainda tenho que tentar pagar as contas.
Hoje é dia de luto, pela falta de respeito com todos nós, profissionais que lutam todos os dias para ter uma vida digna, para pagar impostos, para sustentar nossas famílias, para termos direito a um pouco de prazer.
Não é feriado, desculpem-me.
A linda e triste ilustração abaixo é da Corbis.