Colheita 2016

Colheita 2016
Seja bem-vindo! E que nunca nos falte o pão, o vinho e a saúde e alegria para compartilhar!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Por onde eu tenho andado...

Caros leitores, antes de mais nada minha saudação para aqueles que ainda seguem prestigiando este espaço, mesmo que eu esteja ausente há mais de um mês.
Muita gente (assim como eu) não tem ideia do trabalho que dá manter um blog sério e participativo. É necessário atualizar, propagandear as novidades em outras mídias sociais, enfim: trabalhar.
Para alguns é um passatempo com cara de trabalho, para mim não é. Sempre faço as coisas à sério, mesmo que as vezes tenham cara de 'querido diário'.
Mas estou de volta agora e como faz muito tempo que me ausentei (e o motivo é exatamente a quantidade enorme de coisas que aconteceram nos últimos meses), resolvi fazer um apanhado geral, para não entediar meu fiéis leitores, uma vez que muito do que vocês verão aqui já deve ter sido anunciado por outros blogueiros, por sites etc.
Vou começar do mais recente, assim quem já viu as coisas mais antigas pode parar rapidinho!

As três primeiras fotos são de eventos que aconteceram no mesmo dia! Na ordem inversa: a pizza foi no jantar, em um grande evento na Pizzaria Speranza no Bexiga. Eles receberam o presidente do instituto italiano responsável por manter viva a tradição da verdadeira pizza napoletana. Rodam o mundo, dão cursos, fazem eventos como esse (com a presença de dois professores pizzaiolos) e credenciam casas interessadas em receber o certificado de que lá se faz a verdadeira pizza napoletana.
Preciso dizer a pizza era excelente? Claro que não né? Para alguém como eu, que trabalhou dois anos numa pizzaria, que morou um tempo em Nápoles e que já comeu muita porcaria com o nome de 'pizza', esse jantar foi um primor. O elogio da simplicidade!


 No meio da mesma tarde, a Confraria dos Sommeliers se reuniu para degustar às cegas 16 rótulos de espumantes brasileiros feitos no método tradicional. O campeão foi um dos espumantes da Don Giovanni.

 Na hora do almoço, uma degustação raríssima: sete safras do vinho branco da uva Peverella, a primeira uva vinífera branca a ser cultivada no Brasil e que vem sendo resgatada por um grupo de vinhateiros com ares de 'band of brothers', que formam a Era dos Ventos (Alvaro Escher, Luis H. Zanini e Pedro Hermeto). Até bem pouco tempo, só existia no mercado o vinho de Peverella da vinícola Salvatti, que fica no Caminhos de Pedra (Bento Gonçalves). Aliás é bem nessa região mesmo que estão alguns dos vinhedos cujas uvas vieram parar nas garrafas que degustamos abaixo.
Vinhos únicos, muito diferentes, com características originais e que - no meu entender - mostram que o Brasil é capaz de fazer coisas com personalidade diferenciada, marca de uma indústria que está se profissionalizando em várias vertentes.
Se eles são bons? Puxa! E como são...raros e caros, mas muito bons!

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Na semana anterior eu havia estado no RS, mais precisamente na região de Farroupilha e Caxias do Sul. Como sempre foi uma viagem rápida, mas que me revelou lados da vitivinicultura do estado do RS que eu conhecia pouco (quem ficou curioso leia sobre isso na próxima edição da revista ADEGA).
Felizmente já tenho a sorte de ter alguns bons amigos nesses lugares para onde vou, o que acaba por me garantir mais do que o trabalho em si e por conta disso conheço lugares como o da foto abaixo, a Bottega Pace, em Caxias do Sul.
Quem me levou lá foi o enólogo Alejandro Cardozo e sua namorada Alain.


O local é pequeno, o menu é fixo e muda sempre, o chef (Júnior Paz) trabalha numa cozinha aberta e vem até a mesa explicar cada um dos pratos. Não para mim apenas porque sou jornalista e editora de revista de gastronomia, mas para todos os clientes! 


Sua culinária é rigorosa, inventiva e saborosa. Como eu não estava trabalhando 'oficialmente', fotografei apenas a entrada, que tinha uma terrine de legumes precisamente grelhados e temperados, sorvete de requeijão de búfala (!!!), purê de batata doce com funcho e azeite cítrico.
O negócio é reservar, ir até lá e se deliciar!


Antes de irmos ao restaurante, fui fazer uma visita 'oficial' ao Alejandro na vinícola onde ele trabalha, o Grupo Décima/Piagentini, cuja sede fica no centro de Caxias do Sul.
Fizemos uma longa degustação de espumantes e de alguns tintos. A melhor coisa a respeito de se degustar ao lado de quem faz, sem um grupo enorme ao lado e sem 'hora certa' para terminar é o quanto se aprende. Diferentemente das viagens em grupo (muitas delas são - apesar do que vou relatar a seguir - muito boas) onde temos horário restrito e um público muito diversificado, quando temos a oportunidade de estarmos com o enólogo, podemos fazer perguntas bobas sem parecermos idiotas aos nossos pares, podemos fazer as perguntas dificeis sem sermos apelidados de metidos ou presunçosos e, no momento preciso, podemos apenas desfrutar. Esse encontro com Alejandro teve um pouco de tudo isso, além de excelentes vinhos, claro!


Como falei antes, eu estava em Farroupilha, fazendo uma reportagem para a revista ADEGA e me deparei com paisagens como a abaixo: o Vale das Moscatos. Um lugar de beleza impressionante, que me foi apresentado pelo presidente da AFAVIN, Tiago Tonini.
Confesso que há muito tempo eu me perguntava de onde vinham tantas uvas para fazer o volume de espumantes Moscatel que nós produzimos. Acabei descobrindo que o pequeno município é responsável por quase 50% da produção dessas uvas no estado do RS.


Também fui conhecer a Basso Vinhos e Espumantes, numa visita que 'já tinha passado da hora' como se diz no interior. E foi um prazer conhecer o jovem Fabiano Basso e estar novamente com Marcos Vian, um dos enólogos mais ativos do Brasil, que atua em variados terroirs.
Achei a empresa muito bem estruturada e vi (e provei) o novo vigor de seus vinhos, além dos Moscatos. A foto abaixo foi tirada de cima de um dos tanques, onde se avista uma paisagem impressionante.


Passei uma boa parte da tarde com o pessoal da Perini, no Vale Trentino, e fui levada para conhecer uma parte do vale que não é acessada pelos turistas do vinho, com casario da imigração preservado, vinhedos que cobrem colinas, cascatas e grutas.




E para fechar esse lindo dia com chave de ouro, fui jantar com a família Perini no restaurante Milano. Um desses lugares que - se ainda existissem em São Paulo - eu seria cliente de carteirinha!
Olhem as saladas no balcão aberto, esperando que alguém as peça. É de abrir o apetite não?


 O querido Pablo (na foto abaixo), que me ciceroneou por boa parte do dia, acabou dividindo comigo um aperitivo típico da região: uma parte de cachaça com suco de limão e açúcar, gelo e mais uma parte de Underberg. Esquenta, esfria, limpa a boca...enfim, combina!


A massa do tortéi era finíssima, delicada como só mão dedicadas podem produzir. Fazia muito (mas muito) tempo que eu não comia uma igual.


E para completa confusão dos paulistanos que vão ao restaurante, esse é o prato conhecido como 'bauru'. Nada a ver com o nosso sanduíche, nem com o original (com rosbife, queijo derretido e pepino) e nem com a cópia (presunto, queijo e tomate). O bauru de Caxias do Sul é um enorme filé mignon feito na chapa e depois levado ao forno rapidamente com queijo e molho de tomate fresco. Ainda agora só de olhar a foto me dá água na boca...


Vou parando agora, tenho que fazer a mala para tentar chegar até Mendoza amanhã (deveria ter ido hoje, mas a greve geral por lá me impediu).
Ainda deverei postar mais coisas antigas, mas o farei quando retornar no final de semana.
Para aqueles que tiveram paciência para continuar aparecendo aqui, meu sincero agradecimento!

Bons goles e até mais!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Degustando pelo Brasil

Conforme postei aqui no começo de setembro, a segunda fase do Circuito Brasileiro de Degustação, organizado pelo Ibravin, aconteceu no final do mês em quatro capitais brasileiras. No primeiro semestre deste ano foram outras quatro.
Nessa fase o Circuito começou em Porto Alegre, passou por São Paulo, Recife e Fortaleza. Dos quatro eventos eu estive presente em três, e em dois deles (no nordeste) como palestrante.
O objetivo do Circuito é muito claro: apresentar aos profissionais do setor (donos de bares/hotéis/restaurantes, bartenders, garçons, chefs de cozinha, maitrês, sommeliers e donos de lojas de bebidas) a diversidade do mundo do vinho brasileiro. O evento também é aberto durante um par de horas para o consumidor final. Tudo isso é gratuito para os degustadores.
O Ibravin convida os produtores, que arcam com uma parte das despesas, enquanto a outra fica por conta de fundos da entidade destinados à promoção. Eles podem levar quantos vinhos quiserem e participar das capitais que escolherem. Nos eventos dos quais participei estavam mais de 20 produtores nacionais, entre pequenos, médios e grandes.
Infelizmente não pude estar em Porto Alegre, mas conversando com os produtores depois, descobri que o evento foi muito interessante e importante para quem lá expôs.
Vale ressaltar que, diferentemente de outras feiras, onde quem tem mais dinheiro faz um estande mais bonito, no Circuito as mesas são rigorosamente iguais e os acessórios que existem para um são iguais para os outros.
Já o público...como dizia o 'reclame' antigo: "Quanta diferença"!
Os gaúchos, claro, valorizam sua cultura regional e o vinho está fortemente inserido nela, por isso nada mais natural de que o evento estivesse concorrido e agradável por aquelas terras.
São Paulo, no entanto, é outra história.
Tão valorizado e prezado, a ponto de ser aquele lugar onde o produtor "paga" para que seu vinho apenas apareça em uma carta (nem que nem uma só garrafa seja vendida), é um lugar que se comporta mal.
 Na foto acima, Patrícia Poggere, da vinícola Luiz Argenta, enfrentando o calor da tarde paulistana e abaixo duas passistas da Vai-Vai, escola paulistana que terá seu samba enredo de 2013 falando do Vinho Brasileiro, junto de uma das lindas recepcionistas do evento.

O paulistano está (ou 'é' - pior ainda) arrogante, preconceituoso e metido a besta (não estou generalizando pois toda generalização é burra). Não sabe separar a política dos negócios (vide esse falastrão cheio de botox que é candidato a prefeito aqui) e acaba fazendo questão de por o dedo no nariz de todo mundo para perguntar: "Você sabe quem eu sou?".
Entreouvi conversas que me deixaram de cabelo em pé, com vergonha de ser paulistana, com vergonha dos que se dizem 'enófilos' por aqui, pois essa denominação está se parecendo perigosamente com 'dono-da-verdade'.
O tempo todo fiquei com a sensação de que as pessoas estão falando demais e agindo de menos, em ambos os lados. Independentemente de posições políticas, não há como justificar a falta de educação. Não compartilha das ideias? Não vá ao evento. E se for, por respeito aos produtores que lá estão ou por curiosidade de enófilo, comporte-se.
Eu já estava incomodada com esses comportamentos quando, dias depois desse evento em São Paulo, escutei de uma pessoa da mídia (que recebe dinheiro e atenção dos vinhateiros brasileiros) o seguinte comentário: "Até que eles estão aprendendo a fazer vinho por aqui. Também, depois de tanto a gente falar!".
Fiquei boquiaberta com a arrogância e com a ideia de que algo na indústria do vinho no Brasil mudou por conta do comentário de uma pessoa de uma mídia obscura. Coisa rara em mim, não consegui nem responder. Pior, fiquei pensando que, com alguém que se advoga todo esse 'poder', nenhum argumento é possível.


 Acima, o evento em SP, sob o calor de mais de 30 graus, que aqueceu muito os ânimos, nem sempre para o bem.

Quando fui para o nordeste é que pude perceber como o 'outro' Brasil se comporta. A primeira parada foi a cidade do Recife, no meu entender a segunda capital gastronômica do país, com excelentes opções em todas as áreas da culinária, e ainda bem pouco contaminada pelos preços extorsivos praticados no eixo Rio_SP.



O evento foi realizado no salão do Paço da Alfândega, um lindo espaço com vista para o rio e para o mar, na entrada do bairro de Recife Velho. O público, tanto o especializado quanto o leigo, foi elegante e correto, interessado e tranquilo.


A degustação que fui convidada a conduzir (na foto abaixo) era de espumantes dos dois métodos, tradicional e charmat, e foi muito boa de se fazer, com seis diferentes rótulos e a presença de sommeliers, bartenders, consumidores finais e donos de restaurantes.


A segunda escala foi a cidade de Fortaleza, onde o espaço escolhido foi o salão Mar de um importante buffet que, para mim pessoalmente, trouxe adoráveis lembranças do final da década de 1970, quando aquele local era o mais elegante restaurante da região, chamado Sandra's, um local mágico, sobre uma enorme duna de onde se avista o mar, e eu (pré-adolescente) lembro-me de comer lagosta e ser servida por garçons de luvas brancas.
Reformado e renovado, ainda conserva a elegância e o serviço atencioso, comentado por todos os expositores.


A sala (na foto abaixo) onde conduzi a degustação (dessa vez de vinhos brancos e rosés) tinha um detalhe adorável: cada uma das mesas era coberta por uma toalha com os bordados típicos do nordeste, uma maneira linda de valorizar a produção regional.


Expositores como a Valduga (Juciane Casagrande à esquerda na foto), Don Giovanni (Daniel no meio) e a Cooperativa Aurora (Paula S. Guerra) na ponta direita, comentaram sobre a qualidade do público e o interesse das pessoas nos produtos nacionais, muitos deles provando os vinhos pela primeira vez.


Eu escutei de uma das degustadoras que compareceram à degustação que conduzi a seguinte frase: "Eu e meu marido somos donos de bares e restaurantes e tenho que confessar que cheguei aqui com preconceito, mas saio com 'o rabo entre as pernas' por conta da quantidade de bons vinhos que provei".
Que diferença não? Comentários como esse escutei vários, dos professores da associação de bartenders, de donos de lojas etc.
Tudo são bromélias afinal no nordeste? Claro que não. Afinal esta é a realidade e não a ficção que muitos querem passar adiante. Também presenciei gente (em ambas as cidades) juntando o conteúdo de uma garrafa na outra para levar consigo (ainda bem que eram do mesmo vinho) e o desagradável pedido de uma senhora ao final do evento em Fortaleza: "O que você tem aí para a Vigilância Sanitária?". Como minha resposta foi a de que eu não era produtora nem expositora e sim da imprensa, ela virou as costas e foi de mesa em mesa pedindo, até que conseguiu uma garrafa para levar para a casa. Sim, isso é Brasil, a parte que mais detestamos dele.
Nas conversas com os expositores em nossos jantares, na espera por aviões, taxis etc, escutei a satisfação de ter feito os eventos no nordeste e a constatação de que por lá existe mais desconhecimento do que preconceito, o contrário do que existe em São Paulo.
Minha conclusão? Deixem São Paulo para lá, conquistem o Brasil onde ele é mais amigável, ao invés de ficar malhando ferro frio e de má liga. Quem for de bem saberá onde procurar e quem não for deixará de causar estrago.
Fico com a lembrança da música cantada por Elis Regina: "O Brasil não conhece o Brasil. O Brasil nunca foi ao Brasil".

Abaixo, algumas imagens de um local que sempre me deixa feliz, o mercado municipal do Recife, que se chama São José, não por acaso o carpinteiro bíblico, aquele que ensina a aceitar e construir.





Bons brindes!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Troféu Vitis - Safra 2012


A vida nos prega surpresas!
SOU GRATA!


"Nós nos aferramos ao nosso ponto de vista, como se tudo dependesse dele. No entanto, nossas opiniões não tem permanência: como o outono e o inverno, elas passam, pouco a pouco." Chuang Tzu, séc III a.C - China

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Primeira Denominação de Origem do Brasil!


SAIU! 
Finalmente o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) enviou o tão esperado documento que concede ao Vale dos Vinhedos o status de primeira Denominação de Origem do Brasil.
Na foto abaixo o antigo presidente da Aprovale (Aldemir Dadalt) entregando os documentos com o pedido em 2010.
O longo estudo e trabalho que possibilitaram essa conquista, foi alicerçado pela obtenção do IPVV (Indicação de Procedência do Vale dos Vinhedos) que também foi a primeira IP brasileira e que já estabeleceu a base de regras e procediemntos que possibilitaram a nova conquista.
Hoje, das 31 vinícolas do Vale associadas à APROVALE, 8 delas seguem todas as denominações da DO e podem ostentar em seus rótulo a cobiçada sigla. 
Parabéns às vinícolas, aos pesquisadores e às autoridades que tornaram isso possível.
É uma grande conquista para o vinho brasileiro!



quinta-feira, 6 de setembro de 2012

"O Almoço"

Tenho pensado muito sobre comida ultimamente. Claro que isso é inerente à minha nova atividade como editora de uma revista de enogastronomia.
Mas isso não quer dizer que algumas vezes o que mais me chame a atenção seja a 'experiência' gastronômica como um todo, fora dos alimentos e das bebidas em si.
Não consigo lembrar qual foi o chef de cozinha que me disse uma vez que não fazia comida caseira, que era contra essa coisa de confort food. Ele explicou que se a pessoa se dá ao trabalho de sair de casa e pagar por uma comida, ela não quer a comida da vovó. Completou que esse pensamento de comida caseira, comida da mãe é coisa de gente que relegou os pequenos prazeres (de preparar um macarrão decente com boa manteiga, ervas e queijo de boa qualidade por exemplo) à 'secretária do lar' e que está com o paladar tão travado por fast food e comida à quilo, que não consegue mais comer um simples bife bem feito sem achar aquilo de outro mundo.
E isso me faz pensar que muito de nossa cultura culinária está mais ligada à família do que à alta gastronomia, pois fora dos restaurantes à quilo (que me parecem uma praga nacional sem precedentes) e as praças de comida rápida dos shoppings, o que nos resta é comer em casa (e isso implica em trabalho, é claro) ou buscar um restaurante que atenda às nossas necessidades (o que nem sempre é possível).
É fato que, como em tantas outras realidades de nosso país, a economia joga um jogo muito importante aí. Mulheres deixaram suas casas para trabalhar, crianças ficam com babás, empregadas ou comem na escola, as famílias se unem e se separam com a velocidade da montagem de um hamburger genérico. Vovós e vovôs estão na academia, ou continuam no mercado de trabalho. E, em paralelo, o poder do marketing e da indústria fez crescerem as redes de comida rápida, os ingredientes pré-preparados, as escolas de gastronomia e todo um mundo sem precedentes. O que comer com o que você pode pagar? Vale a pena escolher uma batata frita congelada, excessivamente salgada, comida com garfo de plástico só para dizer que está 'comendo fora'?
O que é a 'experiência gastronômica'?
Eu não vou entrar em detalhes dessa discussão pois esse pensamento ainda está tomando forma em meu cérebro, mas vou usar este espaço para contar sobre minha última refeição na Itália este ano. Foi no final de maio, na cidade de Milão, num bairro bem perto do centro mas distante o suficiente para não ser turístico, e boa parte do que veio à seguir foi um delicioso acaso.
Toda vez que viajo me 'dou' de presente uma refeição mais elegante, num restaurante indicado por alguém que seja capaz de proferir palavras sobre ele que vão além do 'gostoso e bonito'. Assim, fiquei sabendo que existia um desses locais a poucos quarteirões do hotel onde eu estava. Peguei as indicações na portaria e sai em direção ao local.
Que eu não encontrei!
É isso mesmo, não encontrei o tal do restaurante, mas passei em frente duas vezes da Trattoria Il Carpaccio, e numa olhadela para dentro, achei o local convidativo.





Internamente o local me agradou também. Logo vi que estava em um restaurante que atendia uma clientela local (e fiel). O garçom, daqueles com ares de estar no local há tanto tempo que é meio como um dono, me indicou uma mesa central, no primeiro salão (eram vários) e me lembro de gostar dela pois logo atrás de mim ficava a convidativa prateleira da foto acima!


Na frente de minha mesa um outro salão, movimentado mas não lotado. Como na Italia dispensar a entrada é afirmar que você não sabe nada sobre 'como comer bem', eu não iria me deixar passar por essa saia justa. Assim, pedi uma entrada mista para uma pessoa, e recebi o que veio abaixo: uma tábua com melão, salame e presunto Parma e uma bela porção de panzanela (a salada de pão, tomates frescos e manjericão que é tão amada pelos italianos).


Quando pedi uma garrafa de vinho que não estava entre as mais baratas da carta, recebi como cortesia o simpático prato abaixo, de abobrinhas firmes empanadas e um quadrado de massa recheado com uma fatia de presunto. Vale dizer que não apenas o garçom me cumprimentou pela escolha, como também o comensal da mesa em frente, um senhor italiano que me disse estar bebendo uma garrafa de um Syrah novo. A minha era de Barbaresco. Eu 'quase' lhe ofereci uma taça, mas sabendo como são os italianos pensei que isso seria um convite para uma conversa interminável, e tudo o que eu queria era saborear minha refeição.


Enquanto eu comida devagar a enorme entrada, comecei a observar as pessoas à minha volta: o casal ao lado cujo homem comia do prato da moça mas insistia que não queria um para ele (ela acabou pagando toda a conta), os dois orientais que comeram muito enquanto um deles tomava grande goles de um vinho muito caro e seu companheiro acompanhava o macarrão com coca-cola, a mesa 'da firma' onde os engravatados sorviam vinho branco e tomavam dois cafés, e o senhor - bem velhinho - numa mesa ao lado.
Esse senhor foi quem me chamou a atenção para onde eu estava: eu havia entrado diretamente no meu filme preferido de Ettore Scola 'O Jantar'.
A realidade da situação me fez ficar rindo sozinha enquanto a taça de meu vinho se esvaziava.
Para quem nunca assitiu o filme, a ação quase toda se passa numa noite em um restaurante italiano movimentado. Clientes, equipe e a dona do local interagem e aos poucos vamos sabendo de suas estórias, seus dramas, a comédia do cotidiano.


Na foto acima estão dois dos personagens principais, Fanny Ardant, a dona do local e Vittorio de Sicca, um dos clientes fiés, que senta-se quase sempre no mesmo local, olha todo o cardápio e pede água e arroz branco!


Olhem ele alí, no canto, tomando seu cafezinho! Na minha realidade, ele era provavelmente um advogado, pois eles o chamavam de 'dottore' e perguntavam como estava o escritório. Sua garrafa de vinho branco (já aberta) chegou logo após ele se sentar e o garçom lhe perguntou o que ele queria comer naquele dia, sem cardápio, sem nada.
Quanto ao casal que mencionei antes, não os fotografei, é claro, mas me lembraram o personagem de Giovanni Giovannini, na foto abaixo. Um professor que tem um caso com sua aluna e ela resolve ler para ele no restaurante uma carta que escreveu para a esposa dele, pedindo que ela o 'liberasse' da obrigação do casamento.


Quando meu prato principal chegou (obviamente meia porção de risoto milanês) eu já estava totalmente imersa naquele universo paralelo que se formara à minha volta, e com o auxílio de minha imaginação.


A cozinheira (e proprietária - na foto abaixo) veio cumprimentar o 'dottore' e outros clientes que ela parecia conhecer do berço. Aproveitou para me perguntar da refeição e para pegar alguns dos tomates que estavam ali atrás de mim. Voltou em seguida para saber o que eu comeria de sobremesa...Madonna!!!



Sei da impossibilidade de dizer não ao chef, principalmente quando você está - visivelmente - apreciando sua refeição. Assim, mesmo com a barriga cheia de boa comida e excelente vinho e com a cabeça pululando de ideias, aceitei a dica da macedônia de frutas.


O que é a experiência gastronômica afinal? O que é um bom restaurante? É a boa companhia (eu estava sozinha), o bom vinho (eu vinha de dez dias provando Barolos e Proseccos), o bom ambiente (vocês viram as fotos, o local não é nada demais). Fato é, que não tenho respostas. Mas eu obviamente parecia satisfeita no amplo sentido da palavra, pois o garçom pediu se poderia - com a minha câmera - tirar uma foto minha. Estou aí, nel pranzo.*

* O almoço

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Ah! esses italianos!

Na foto abaixo, rótulo de gozação feito por um dos mais famosos produtores de Barolo do Piemonte, Vietti.
Não dá para levar essa italianada querida muito a sério mesmo...


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Avaliação Nacional de Vinhos - Inscrições

No último sábado deste mês de setembro (dia 29) acontecerá a XX edição da Avaliação Nacional de Vinhos, em Bento Gonçalves.
Organizada pela Associação Brasileira de Enologia (ABE) é, para mim, o evento mais bacana do vinho brasileiro que há no calendário anual. É uma espécie de cerimônia do Oscar.
Para quem gosta de vinhos e não é preconceituoso com os produtos nacionais, essa é uma festa para IR!
No entanto, as inscrições que começam amanhã - conforme informações que vocês podem ler abaixo no release oficial - têm uma procura imensa e as vagas disponíveis (e são centenas) costumam esgotar-se numa velocidade enorme, ainda mais neste ano que o evento comemora duas décadas e que a safra 2012 foi tão abençoada pela mãe natureza.
Então, se você é um desses entusiastas, não perca tempo e faça sua inscrição, reserve hotel e passagem aérea se for o caso.
Eu estarei lá, e desta vez na mesa como comentarista. Já estive uma vez, em 2008, e confesso que é de meter medo ter que falar para o público de mais de 700 pessoas. Mas não é o tipo de honraria que alguém do mundo do vinho se negue a participar. Assim vou engolir o medo com uma boa dose de vinho e subir no palco - que afinal também é um belo lugar de onde se apreciar a festa!
Na foto abaixo, a edição do ano passado.



Abre amanhã período para inscrições ao público

Edição histórica deverá reunir quase mil apreciadores de vinho de todo País e do exterior. Nos últimos anos, vagas foram preenchidas em uma semana

O Brasil vitivinícola para no dia 29 de setembro para conhecer a representatividade da Safra 2012. É a 20ª Avaliação Nacional de Vinhos, que chega como a maior de todas as edições por reunir 387 amostras de 70 vinícolas de sete estados brasileiros. O evento, que já reuniu 11.217 apreciadores da bebida desde 1993, completa 20 safras tendo forte influência na evolução da qualidade da produção nacional, hoje reconhecida mundialmente. Quem deseja viver essa experiência, considerada única no mundo, e degustar na taça as 16 amostras selecionadas entre os 30% representativo, pode garantir sua inscrição a partir de amanhã, 04 de setembro.

As inscrições podem ser feitas pelo site www.enologia.org.br e informações obtidas pelos telefones (54) 3452.6289 ou 3451.2277. A exemplo de anos anteriores, as vagas oferecidas foram preenchidas na primeira semana. Diante disso, o presidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE), entidade promotora, enólogo Christian Bernardi, chama a atenção dos apreciadores para que se antecipem, a fim de garantir participação no evento. “A Avaliação Nacional de Vinhos é um evento muito concorrido e que atrai gente de todas as partes do País, inclusive do exterior. A estrutura é limitada no número de pessoas e, por isso, se esgota rapidamente”, diz.

O resultado que será apresentado no dia 29 de setembro reflete a análise feita por 120 enólogos brasileiros, que degustaram as amostras no período de 10 a 31 de agosto, no Laboratório de Análise Sensorial da Embrapa Uva e Vinho, instituição parceira da ABE e que presta todo apoio técnico ao evento. Seguindo normas internacionais, as degustações foram realizadas às cegas em cinco categorias: Branco Fino Seco Não Aromático, Branco Fino Seco Aromático, Tinto Fino Seco, Tinto Fino Seco Jovem e Vinho Base para Espumante.