Colheita 2016

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sexta-feira, 23 de março de 2012

Os vários lados de uma mesma história


Nos últimos dias o mundo do vinho viveu cenas dignas do filme 'Apocalypse Now' do diretor americano (e produtor de vinhos na Califórnia) Francis Ford Coppola, com o agravante da semelhança desta também ser uma guerra na qual todos perdem, e a infelicidade de não ser uma obra de ficção (embora baseada em fatos reais).
Enfim, os textos que reproduzo aqui não são meus, e eu não vou emitir nenhuma opinião sobre o teor deles.
Eles estão sendo publicados pelo simples fato de que eu sigo acreditando que medidas extremas não são positivas e que devemos favorecer o diálogo e a discussão entre todas as partes.
O primeiro que foi enviado foi o comunicado (Carta Aberta) de Ciro Lilla, dono das importadoras Mistral e Vinci. O segundo foi o comunicado oficial para a imprensa enviado pela Vinhos Salton e o terceiro, recebido hoje, foi o comunicado para a imprensa do Ibravin. Eles serão publicados na ordem que foram recebidos nesta semana.
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Proteção sem limites ao vinho nacional
Caro amigo,

O mundo do vinho no Brasil vive momentos decisivos. Agora é mais do que necessário fazer um alerta a nossos clientes sobre algumas notícias muito preocupantes para os amantes de vinho.
Por incrível que pareça, surgem outra vez notícias a respeito da pressão dos grandes produtores gaúchos sobre o governo para que haja um novo aumento de impostos sobre o vinho importado, como se a gigantesca carga tributária atual não representasse proteção suficiente para o vinho nacional. Fala-se agora em “salvaguardas”, como se a indústria nacional estivesse em perigo, em risco de falência, quando na verdade as notícias enviadas à imprensa reportam um grande crescimento de vendas. Afinal, é preciso definir qual discurso é o verdadeiro: o vinho nacional vai muito bem ou vai muito mal? Os comunicados e números oficiais dizem que vai muito bem, o que invalida o argumento a favor das “salvaguardas”. Além do que, os impostos atuais já são altíssimos, e representam o verdadeiro grande inimigo do consumo de vinhos no Brasil.
Além do aumento de impostos  — pediu-se um aumento de 27% para 55% no imposto de importação, o primeiro da longa cadeia de impostos pagos pelo vinho importado — desejam também limitar a importação pelo estabelecimento de cotas para a importação de cada país. Ficariam livre das cotas apenas os vinhos argentinos e uruguaios. Incrível: cotas de importação para proteger ainda mais um setor, o de vinhos finos nacionais, que cresceu cerca de 7% em 2011 — ou seja, nada menos do que quase o tripo do crescimento do PIB brasileiroSe forem adotadas salvaguardas para um setor que cresceu o tripo do PIB em 2011,  que medidas de proteção se poderia esperar então para o restante da economia? Repito porque parece incrível, mas é verdade: pedem salvaguardas para um setor que cresceu cerca de 7% em 2011! É preciso dizer mais alguma coisa?!
Além de mais impostos e das cotas, os mesmos grandes produtores pedem também ainda mais burocracia, como se a gigantesca burocracia que já envolve a importação de vinhos no Brasil também não fosse proteção suficiente para o vinho nacional. Nem bem foi implantado o malfadado selo fiscal e já se pede agora que o rótulo principal do vinho, o rótulo frontal, contenha algumas das informações que hoje já constam dos contra-rótulos obrigatórios. Essa nova medida, se for adotada, vai afetar — como sempre acontece com a burocracia no caso dos vinhos — apenas os vinhos de alta qualidade e pequenos volumes, já que os grandes produtores mundiais não terão nenhuma dificuldade em imprimir rótulos especiais apenas para o mercado brasileiro. Isso, por outro lado, obviamente não será possível para aqueles produtores que embarcam menos de 50 ou 100 garrafas de cada vinho para o nosso país. 
Quem, afinal, seria responsável pelo aumento no interesse pelo vinho no Brasil? Certamente são esses pequenos produtores, de tanto charme e história, cuja vinda se tenta dificultar aumentando a burocracia, em uma medida sobretudo pouco inteligente. A importação desses vinhos deveria ser incentivada por todos, inclusive pelos grandes produtores nacionais, porque são eles os grandes veículos de propagação da cultura do vinho no mundo inteiro.
Para completar esse quadro preocupante, agora também são os vinhos orgânicos de pequenos produtores que têm sua posição ameaçada em nosso país. A partir de Janeiro deste ano, os vinhos orgânicos ou biodinâmicos — mesmo os certificados como tal em seus países de origem ou por órgãos certificadores internacionais — não poderão mais ser identificados como tal no mercado brasileiro, a menos que sejam certificados por organismo certificador brasileiro. Expressões como “orgânico”, “ biodinâmico”,  “bio”,  etc, são proibidas agora nos rótulos, privando o consumidor dessa informação esencial — com exceção dos vinhos certificados por organismo certificador brasileiro. Acontece que o processo de certificação brasileiro é caro e demorado, sendo na prática inacessível aos pequenos produtores do mundo todo. Acreditamos que apenas os grandes produtores mundiais conseguirão se registrar aqui como orgânicos ou biodinâmicos, privando assim o mercado do conhecimento de um número já muito grande e sempre crescente de produtores orgânicos. O vinho é um produto muito particular e específico, em que a maior parte da produção mundial de qualidade está nas mãos de produtores muito pequenos, que não terão recursos para obter a certificação brasileira. Sem dúvida acreditamos que é o caso de adiar a aplicação dessa medida para os vinhos, pelo menos até que sejam assinados acordos de reciprocidade, que permitam o reconhecimento mútuo dos processos de certificação no Brasil e no exterior. Afinal, a quem interessa dificultar a propagação dos vinhos orgânicos a não ser a quem não tenha a intenção de produzir vinhos dessa forma?

Diante desse panorama triste, a pergunta que se impõe é a seguinte: qual o limite para a proteção necessária aos grandes produtores nacionais para que possam competir no mercado? Ou tudo isso seria apenas uma busca por maiores lucros? Algumas das medidas adotadas recentemente, como o malfadado selo fiscal, atingem fortemente os pequenos produtores nacionais também. Vale repetir que os pequenos produtores brasileiros deveriam ter um papel importante no panorama vinícola nacional, uma vez que não existe país com alguma relevância no mundo do vinho onde o mercado seja dominado por apenas alguns grandes produtores. Afinal, todos nos lembramos do período anterior ao início dos anos noventa, quando o mercado pertencia a um pequeno grupo de gigantes da indústria nacional, a maioria multinacionais, e a alguns gigantes da industria vinícola internacional — situação que obrigava o consumidor brasileiro a consumir vinhos caros e medíocres, quando no país nem sequer se sabia o que significava a palavra sommelier. 
Estaríamos na iminência de uma volta a esse passado triste para o vinho em nosso país? Será que serão perdidos todos os ganhos dos últimos anos, quando, à custa de tantos esforços, aumentou enormemente a cultura do vinho no Brasil, com o surgimento de muitos milhares de profissionais ligados ao vinho, de inúmeras publicações sobre essa bebida maravilhosa, de tantos novos empregos e de tantas novas possibilidades de crescimento profissional? Seriam os muitos milhares de brasileiros que trabalham nesse novo mercado criado pelo vinho importado, em particular o verdadeiro exército de sommeliers, menos brasileiros do que aqueles que trabalham nas grandes empresas produtoras de vinho nacional? E vale lembrar que de cada 5 garrafas de vinho consumidas no Brasil, entre vinhos finos, espumantes e vinhos comuns (produzidos com uvas de mesa), nada menos do que quase 4 (77.4%) já são de vinhos brasileiros! Os números de vendas e de crescimento do vinho nacional são gritantes, e tornam absurdo se buscar ainda maior proteção
O consumidor precisa se manifestar, precisa dizer não a esses verdadeiros abusos! 
É preciso ter uma agenda positiva para o vinho no Brasil, com todos lutando juntos para um aumento do consumo, para que o vinho obtenha o tratamento tributário de um complemento alimentar — como em diversos países da Europa — e não um tratamento punitivo com ocorre aqui, onde o ICMS pago pelo vinho é o mesmo pago por uma arma de fogo! É preciso também lutar para diminuir a burocracia, que tanto atrapalha os pequenos produtores de vinhos de baixo volume e alta qualidade — aqueles que criam mercado para o “produto vinho”. 
É importante que se compreenda o quanto antes que o vinho não é uma commodity, onde o único fator a influenciar a compra é o preço. Vinho é cultura, é diversidade, é terroir, é arte. É como o mercado de livros: o brasileiro lê pouco, assim como bebe pouco vinho. E dificultar a venda de livros de autores estrangeiros não apenas não serviria para aumentar a venda de livros de autores brasileiros, como certamente inibiria ainda mais o hábito da leitura. O mesmo ocorre com os vinhos. É uma ilusão achar que encarecendo o vinho importado o consumidor vai substituí-lo automaticamente pelo vinho nacional. Na verdade o mais provável é que substitua por outro vinho importado mais barato, ou pela cerveja gourmet, ou pelo whisky, por exemplo. O que é preciso é popularizar o consumo do vinho pela diminuição dos preços e da burocracia, tanto para os vinhos nacionais como para os importados. Na verdade eles são aliados, e não inimigos como acreditam aqueles que defendem um protecionismo ainda maior para o vinho brasileiro. 
O amante do vinho precisa reagir contra essa situação. Ou teremos todos que aceitar uma volta à situação de 20 anos atrás, com a perda de todo o esforço, todo o trabalho e toda a evolução obtida nesse período.
Cordialmente,

Ciro de Campos Lilla
Presidente das importadoras Mistral e Vinci

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Nota à imprensa

A Vinícola Salton esclarece que são as entidades representativas do setor, Ibravin, Uvibra, Fecovinho e Sindivinho que estão à frente do movimento para salvaguardas dos vinhos nacionais. A Salton, compreendendo que estas medidas podem restringir o livre arbítrio de seus consumidores, encaminhou ao Ibravin um documento informando que não apoiará a causa. Reforçamos ainda que a Salton, uma empresa centenária e brasileira, se preocupa muito com seus clientes e consumidores e que busca constantemente o melhoramento de seus processos e produtos, por meio de investimentos em novas tecnologias e programas de qualidade, para concorrer, de forma justa, com produtos nacionais e importados.

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NOTA DE ESCLARECIMENTO À IMPRENSA  
EM DEFESA DO VINHO BRASILEIRO 
O Instituto Brasileiro do Vinho (IBRAVIN), a União Brasileira de Vitivinicultura (UVIBRA), 
a Federação das Cooperativas do Vinho (FECOVINHO) e o Sindicato da Indústria do 
Vinho do Estado do Rio Grande do Sul (SINDIVINHO) reafirmam que foram estas – e só 
estas – as entidades representativas do setor vitivinícola brasileiro que entraram com 
o pedido de Salvaguarda no Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio 
Exterior (MDIC). Entretanto, contamos com o apoio de dezenas de instituições. 

Nenhuma vinícola brasileira, de forma isolada, deve ser responsabilizada pelo pedido, 
feito em 1o de julho de 2011. Várias empresas tiveram informações colhidas, de 
acordo com a legislação, para embasar tecnicamente o pedido de Salvaguarda. A 
petição foi apresentada pelo setor, por meio das suas entidades representativas. 
A Salvaguarda é um instrumento previsto pela legislação brasileira e internacional, 
reconhecido pela OMC (Organização Mundial do Comércio), para regular e equilibrar 
as relações comerciais entre os países. É, portanto, uma medida legal e temporária 
que objetiva dar condições para que os setores afetados possam, a partir da 
implantação de um Programa de Ajustes, melhorar sua competitividade e concorrer 
em igualdade de condições com demais partícipes do mercado.  
A melhora da competitividade do vinho fino brasileiro possibilitará produtos com mais 
qualidade, custos menores e preços acessíveis ao consumidor.  
É importante ressaltar que não pedimos e não queremos o aumento de impostos 
para os vinhos importados!  
O resultado esperado com a implantação da medida e do Programa de Ajustes é 
garantir a participação da produção brasileira de vinhos finos no mercado, que nos 
últimos anos cresceu apenas para os produtos importados. Dos 91,9 milhões de litros 
de vinhos finos comercializados em 2011, apenas 21,3% eram nacionais. Nosso 
objetivo é resgatar a nossa capacidade competitiva para permanecer neste mercado e, 
se possível, elevar nossa participação em alguns pontos percentuais. Caso contrário, o 
setor produtivo nacional corre o risco de desaparecer em poucos anos.  
Vale ressaltar que, há poucos anos, o vinho fino brasileiro possuía uma participação 
muito maior no mercado nacional, e o quadro abaixo demonstra como isso se inverteu 
em muito pouco tempo. 
O que se espera são medidas temporárias e transitórias que permitam o reequilíbrio 
do mercado, tais como as cotas – que a União Europeia e muitos outros países 
aplicam a inúmeros produtos brasileiros. Por que eles podem aplicar estas medidas e a 
indústria vitivinícola brasileira não? As regras da OMC são válidas para todos os países 
participantes. 

Com o pedido de Salvaguarda e implantação do Programa de Ajustes, acreditamos 
estar garantindo o futuro dos vinhos brasileiros, produto gerado em uma cadeia 
produtiva que emprega mais de 20 mil famílias só no campo, e que hoje já alcança 
nove estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas 
Gerais, Espírito Santo, Goiás, Bahia e Pernambuco).  



Além disso, buscamos equalizar os impostos estaduais (ICMS), que vão de 12% a 30% 
sobre o vinho. Alguns Estados beneficiam com a redução de ICMS as importações de 
vinhos e tributam os nacionais, inclusive os produzidos no próprio Estado, como é o 
caso de Santa Catarina e Espírito Santo. Já foram realizadas reuniões com secretarias 
da fazenda de quatro Estados para tratar desse assunto.  

Nosso objetivo é promover o consumo, criando igualdade de condições de mercado, 
sem a necessidade de aumentar o preço (como se tem sugerido, maquiavelicamente, 
por quem defende os produtos estrangeiros sem se preocupar com a produção, os 
empregos e as agroindústrias nacionais).  
Deve ficar claro que a Salvaguarda é uma medida temporária e pode ser facilmente 
compreendida, assim como quando o Brasil limita a importação de automóveis do 
México, regula a entrada de calçados da China, aceita cotas de comércio com a 
Argentina, sofre taxação na venda de suco de laranja para os EUA, é impedido de 
vender carne suína para a África do Sul e a Rússia, sofre barreiras sanitárias da União 
Europeia para produtos alimentícios, tem cotas para exportar para diversos países, 
precisa atender a todas as especificações da legislação para onde exporta, e outros 
tantos exemplos. Não somos os primeiros nem os únicos a estabelecer isso. Faz parte 
das regras do comércio internacional leal o estabelecimento de princípios que 
garantam igualdade de condições. 
Estamos trabalhando pela redução de impostos há pelo menos uma década. Já 
conseguimos a desoneração dos vinhos espumantes, que antes tinham IPI de 30%. 
Agora o IPI dos espumantes – nacionais e importados – é de 20%, mas, por definição 
de atos específicos, o percentual cobrado sobre os espumantes é de 10%.  
O Brasil possui hoje uma infinidade de vinhos importados. Quando falamos em 
estabelecer cotas para os vinhos estrangeiros, isso não quer dizer que queremos 
restringir a variedade atual. Se a Salvaguarda for implantada, as cotas de entrada de 
vinhos por países serão estabelecidas por uma média dos últimos três anos. O que 
queremos é regulação, não restrição.  
Por fim, para o setor vitivinícola brasileiro, a Salvaguarda não é uma “dádiva”, pois o 
setor terá, neste período, que implantar medidas de ajuste, principalmente 
estruturantes, que o auxilie a tornar-se mais competitivo.  
As ameaças e pressões comerciais, como a proposta de boicote aos vinhos verde- 
amarelos, que têm circulado nas redes sociais e que pretendem restringir a presença 
dos rótulos brasileiros no mercado, só aumentam, comprovam e justificam ainda mais 
a necessidade de implantação das medidas de Salvaguarda.    
Independentemente das interpretações equivocadas divulgadas nos últimos dias, 
baseadas no desconhecimento e na falta de informações, reafirmamos nossa firme 
disposição em seguir com o pedido de Salvaguarda em defesa do vinho brasileiro.  
Atenciosamente, 






quarta-feira, 14 de março de 2012

Seção 'dedo na ferida'

Antes de mais nada sugiro que leiam dois artigos, se é que vocês se interessam realmente pelo mundo dos vinhos. Se só quiserem saber das novidades, nem percam tempo e voltem amanhã.
E mais, sugiro que no caso do artigo do site da Veja, comecem pelos comentários e depois leiam o texto, e desconsiderem o que a jornalista chama de 'uva de qualidade', ela quis dizer 'uva fina' mas como deve ser mais da área de economia, o erro até se justifica (vá lá...).

http://veja.abril.com.br/noticia/economia/vinho-tambem-entra-na-mira-do-protecionismo

http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/79417_AFASTA+DE+MIM+ESSE+CALICE


Agora faço algumas considerações que são minhas e que não representam necessariamente a visão de nenhuma das empresas para as quais eu sou prestadora de serviços (não trabalho para nenhuma importadora ou produtora nacional de vinhos), que isso fiquem BEM claro:
1- Estamos olhando para o lugar errado. O protecionismo aqui está relacionado a ENORME indústria dos vinhos de mesa, ela sim a grande prejudicada pela entrada dos 'reservados', 'santas do pau oco' e os lambruscones genéricos no mercado nacional.
Como eu disse há alguns dias, o brasileiro bebe mal. Todos os brasileiros bebem mal, inclusive a maioria dos muito ricos que só bebem bebidas estrangeiras pois elas têm marcas famosas.
O consumo de vinhos finos é ínfimo quando comparado ao consumo de vinho de mesa. Esses vinhos custam infinitamente mais barato, pois as uvas de mesa são muito produtivas, o vinho é mais fácil de fazer e se ficar muito ruim é só colocar açúcar que resolve.
Essa é uma das verdades que ninguém quer encarar.
Quando as pessoas pensam nas instituições representativas do setor, elas não pensam que esses setores representam também os vinhos de mesa.
É como se fosse possível olhar o Rio de Janeiro e não ver as favelas encostadas no morro. É impossível, mas mesmo com tudo aquilo na 'cara' da gente, chamamos a cidade de 'maravilhosa' e mudamos o nome das favelas para 'comunidades'.
Nós, arrogantes do mundo do vinho, fazemos questão de não ver nada disso.
E quando o mercado é inundado de produtos de baixa qualidade (muitas vezes feitos especialmente para o 'gosto' brasileiro por grandes empresas estrangeiras do setor) corremos para proteger o Bordeaux nosso de cada dia.
É fácil não ver que a conta de alguns dos bons vinhos finos nacionais é paga com muito Sangue de Boi, Chalise e São Tomé.
Quase todo mundo nesse chatíssimo mundo do vinho nacional (importadores, pseudojornalistas e enófilos) prefere não saber que existem centenas de milhares de famílias que vivem (isso mesmo VIVEM) da produção de uvas de mesa para a fabricação de vinho. 
Eu, em minhas andanças pelo sul, já cansei de escutar de produtores rurais que fizeram a mudança dos vinhedos de uvas de mesa para uvas finas e que estavam considerando voltar atrás. Por que? Pois é mais barato e mais rentável produzir uvas de mesa. Não há tanta necessidade de cuidados nos vinhedos (como os compradores de uvas finas exigem), os parreirais em latada podem produzir toneladas por hectare (no caso das uvas finas, pequena produção é uma das condições para a compra de uvas) e a diferença de preço entre as finas e as de mesa muitas vezes não compensa o investimento.
Dirigir essas uvas para o suco de uva tem sido uma alternativa viável e que tem mostrado bons resultados, mas ainda não a ponto de dar vazão à toda a produção.
E esse vinho de mesa é o que a enorme maioria das pessoas bebe. Que ninguém se engane.
Vou mais além: o gosto pelo açúcar domina nossos paladares e é por isso que os 'reservados' chilenos e argentinos ganham tanto mercado, são vinhos de uvas finas adoçados (demi-sec) e isso só está escrito no contrarótulo.
A briga para a mudança nos rótulos não se relaciona com os vinhos de alta gama e sim com essas coisas que entram no mercado dizendo que são uma coisa e são outra. Ninguém lê contrarótulo, só nós, os chatos dos enófilos.
É claro (quem nunca escutou?) que o consumidor médio vai dizer: "mas eu tomo aquele chileno reservado e ele não é amargo como o brasileiro que eu tomo".
Recentemente fiquei sabendo que uma importante marca argentina, vendida em muitos restaurantes do RS por mais de 60 reais, é um Malbec 'suave', mas isso está bem pequenino no contrarótulo.
Nós bebemos mal.
2- Muitas das pessoas que estão se colocando contra as medidas protecionistas (não estou dizendo que sou a favor delas, por que não sou) são pessoas malacostumadas a beber de graça, a fazer viagens de graça. Pior, muitas delas são pessoas que recebem bons salários como consultores das importadoras, como professores de 'instituições', como pseudojornalistas e que tem os grandes vinhos ganhos em suas adegas a perder, se essas medidas entrarem em vigor. Do meu lado, gente conhecida e até amiga em certos momentos, já pediu para o produtor brasileiro mandar uma caixa de vinhos para a casa dele, para ele 'divulgar'.
Sim, o produtor que faz isso está errado. Amarra-se à ilusão de que ganhou um aliado.
Mas pior, o enófilo que age assim é um canalha. E (felizmente não é a mesma pessoa da qual escutei o pedido da caixa de vinhos) já ouvi de outros - assim que o produtor nacional saiu da sala - o seguinte comentário "eu estou tentando tomar o vinho dele para ele não ficar chateado, mas que é ruim, é ruim".
Sinceridade pessoal! Sinceridade! Se não está bom fale, mas não em meio a outros 'formadores de opinião'. Se você tem cara de pau suficiente para pedir uma caixa de vinho, então tenha cara de pau de chegar ao produtor com colocações bem fundamentadas, para dizer para ele o que achou do vinho dele.
Pedir uma coisa pela frente e enfiar a faca pelas costas é coisa de gente que merece o governo que tem.
3- O vinho brasileiro custa caro. E o importado também. Semana passada, almoçando com uma amiga portuguesa, ela pediu um vinho de sua terra que custava na carta R$ 102,00. Um vinho caro, no meu entender. Perguntei para ela quanto esse vinho custava em Portugal e a resposta foi 8 euros! OITO! Algo em torno de 20 reais, que chegou à nossa mesa custando cinco vezes mais.
Sim, os impostos são caros, mas quanto custa a ganância? Ah! dessa ninguém fala não é?
Não falam pois é 'chique' poder tomar vinhos caros, vinhos importados. Se você está tomando um (bom) vinho caro nacional você é bobo, mas se está pagando cem reais por um vinho de oito euros você é bacana. E isso, como se explica? A margem de lucro dos importadores é insana, dos donos de restaurantes é impensável. Lembram daquele link do Oscar Daudt que eu reproduzi aqui, no qual ele fazia um estudo do preço de alguns vinhos na origem e aqui no país?
Pois é, dessa ganância do distribuidor nacional ninguém fala não é?
4- Uma pergunta: vocês acham justo que os vinhos chilenos, argentinos e uruguaios entrem no país sem pagar impostos enquanto os produtos nacionais pagam uma carga tributária altíssima (todo mundo sabe que os impostos no Brasil estão entre os mais altos do mundo)? Isso faz sentido? Isso gera alguma espécie de competitividade?
Isso posto, sou contra medidas protecionistas que afetariam muito mais o Chile e Portugal, pois existem acordos do Mercosul que viabilizam as trocas com Argentina e Uruguai.
Isso é sacanagem, é cobrir um santo descobrindo outro. (E estou apenas mencionando os países que mais exportam para o Brasil). É pensar que os consumidores não irão reagir.
Por que, ao invés disso, não discutimos impostos (em geral) mais razoáveis e damos à indústria nacional a possibilidade de ser competitiva mostrando qualidade e preço? Por que não proibimos (sim proibimos) a entrada de produtos adoçados no país ou aqueles carbonatados (como os Lambruscos genéricos)? Proíbam de vez, façam o consumidor encontrar alternativas, sejam elas importadas ou nacionais, mas em igualdade de condições e de preço.
Proteger os nacionais que continuam pagando impostos absurdos e sacanear com os importados que trabalham direito é uma vergonha. É querer ganhar inimigos onde precisamos encontrar aliados. É fazer com que as pessoas que já têm preconceito contra os vinhos nacionais alimentem um ódio nada silencioso. É um retrocesso.
Que o Brasil é a bola da vez, isso é verdade. E que ninguém se engane que alguém (produtor, importador, e muitos enófilos) está nessa história por amor à camisa ou pela 'arte' do vinho. O negócio é dinheirto gente, como sempre foi. Dinheiro grande, e essa briga é de 'cachorro grande'.
Com a crise européia e americana, os maiores mercados consumidores de vinhos estão retraídos e o Brasil se apresenta como a tábua de salvação para muitos países produtores, e não adianta querer ser graveto nessa enxurrada, pois ela vai continuar.
O brasileiro bebe mal, bebe marca e nome estrangeiro no rótulo e contra isso só educação e preço competitivo, que eu não acredito, será atingido com nenhuma salvaguarda.
Alternativas pessoal que manda!
Respeito pessoal que consome!
Bom senso pessoal que escreve sobre vinhos (a questão nunca tem apenas um lado)!
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OBS: Este assunto teve inúmeros desdobramentos em variadas mídias nos dias subsequentes à publicação desta postagem. Para saber um pouco mais do que foi publicado aqui no blog leia também:
http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2012/03/os-varios-lados-de-uma-mesma-historia.html
http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2012/03/algumas-observacoes.html