Colheita 2016

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sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ainda as enotecas...

Para ver como o assunto é sério, leiam o comentário do José, gaúcho da fronteira, dono de restaurante em Montenegro (pertinho do vale), na postagem de ontem.
Hoje mostro mais algumas enotecas, espaços dedicados às provas e a compra de vinhos de determinadas regiões (sim, pois a maioria desses espaços é precisamente para mostrar os vinhos de uma determinada região).
Na cidade medieval de Dozza, perto de Bologna, fica a 'Enoteca Regionale Emilia Romagna', localizada no subsolo do palácio Sforza. Um lugar espetacular, por fora e por dentro, que deixa boquiaberto qualquer turista.


Estive lá para uma apresentação sobre a região e uma breve degustação, de três vinhos, em uma espécie de bar de vinhos, ao lado da 'loja' - se é que se pode chamar aquilo de loja - pois o local como já disse, o subsolo de um castelo medieval, é uma joia arquitetônica, adaptada para ser um espaço dos mais de mil rótulos de vinhos da região. Todos os produtores fazem questão de estar lá, pois alguns têm vinícolas  muito pequenas e não possuem espaço para receber turistas.



Isso é uma coisa para se pensar, pois aqui no Brasil, muitas vezes, o produtor deveria estar investindo seus recursos para melhorar seus vinhos, mas está investindo em estrutura turística, para atrair gente. Aquele vinho ficará 'quase' bom em um belo lugar, mas provavelmente não terá o mesmo gosto quando a outra garrafa chegar em casa. E o cliente? Vai beber só a lembrança da beleza? Como diz Carlos Cabral, vender a primeira garrafa é fácil, difícil é vender a segunda.

A foto acima é uma cortesia de minha prima Ana Maria, feita na Provence em 2009.

Já na França, onde vinho é levado tão a sério que nem precisa ser coisa séria (é uma espécie de segunda pele nas pessoas), os espaços dedicados à prova (degustação) e venda de vinhos variam de acordo com o estilo da região.
Na Provence, onde o charme está no ar (não por acaso perfumado de lavanda, miguês e rosas), um dos lugares que é parada obrigatória é a Maison des Vins, na cidadezinha de Les-Arcs-sur-Argens. A vinoteca, como eles chamam por lá, é a vitrine dos vinhos da denominação de origem da Provence.
Para se ter uma ideia do profissionalismo desse espaço, a cada dia 16 a 20 vinhos deiferentes estão disponíveis para serem provados pelos visitantes. Os vinhos se alternam todos os dias para que nenhum produtor se sinta prejudicado.
Se o viajante for um conhecedor com mais experiência, pode pedir uma degustação diferenciada e nesse mesmo espaço também são oferecidos cursos de degustação para iniciantes e iniciados.



A Provence está bem representada aqui no Brasil, o grupo 'Vins de Provence' tem boa atuação aqui em SP, e promove alguns eventos através de Raphael Allemand, que trocou a França pelo Brasil há alguns anos e vem fazendo trabalho sério, dedicado, apesar de não ser possível ter aqui uma vinothéque como eles têm lá.
Também é possível encontrar bons vinhos da Provence em um espaço simpático que é 'quase' uma enoteca, a loja e importadora Le Tire Bouchon, no bairro de Santa Cecília aqui em SP. Aliás é uma das poucas boas lojas que não têm medo de ter bons vinhos brasileiros em suas prateleiras (e serve um delicioso cassoulet aos sábados, nas mesas dentro da própria loja).
Também sem preconceitos como a Tire Bouchon, quem mais tenta fazer um trabalho nesse estilo, com nacionais e importados em boa combinação, é a Lis Cereja (sim, ela é tão linda como o nome) e o sommelier Ramatis Russo, em um belo espaço na Vila Olímpia.
No entanto, por conta das forças que atuam na cidade de São Paulo, o espaço - que tinha tudo para ser nossa primeira enoteca 'per se'- é cada dia mais um super agradável restaurante/bistrô, onde os bons vinhos e a boa música ao vivo (jazz e música espanhola em noites especiais) se combinam. Também é importadora e loja, claro.
O nome? Enoteca Saint Vin Saint (foto abaixo, não muito recente, perdoem-me). Ou seja, seria realmente nossa primeira enoteca, uma pena que o mercado (e os 'gérsons' e os impostos) não entende isso direito.


Em meu 'mundo ideal', essas enotecas são espaços despojados, simpáticos, onde passamos para 'uns goles' num dia qualquer, para pegar aquela garrafa diferente para o jantar, onde paramos com uma amiga com a qual queremos conversar (e uma taça de espumante é muito necessária para o bom andamento do papo), onde somos recebidos como velhos conhecidos e quando há uma novidade - quer sejamos clientes de 100 reais ou de mil reais - somos chamados para um gole. E não abusamos, provamos o vinho, falamos a verdade (agrada ou não, eu compraria ou por que não compraria), trocamos 'um dedo de prosa' e seguimos nosso caminho.
Esse lugar, ao menos aqui, não existe.


Bom final de semana e bons goles!