Colheita 2016

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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Degustar e degustar e degustar...

 Há muitos anos um sommelier amigo meu (e muito experiente), que foi meu professor, me falou que eu deveria me dedicar, deveria estudar, mas o que eu mais deveria fazer era degustar, prestando atenção no que estava em minha taça.
Ele me disse que nada subtituia isso, nenhuma viagem, nenhum conhecimento, que isso tudo era complementar à degustação.
Eu sabia que ele estava falando sério. Mas quando você trabalha no salão (como garçon ou sommelier por exemplo) as oportunidades de degustação são bem menores do que parecem para quem está de fora. Até por que muitos proprietários não permitem que seus funcionários provem os vinhos que precisam ajudar a vender. Muito disso tem que mudar (dos dois lados - patrão e empregado) para que a cultura dos bons vinhos ganhe espaço em nossa sociedade. Os proprietários das vinícolas sabem disso, eles sabem que a melhor maneira de conquistar um novo consumidor é fazer um pouco de seu vinho chegar até ele.
No entanto, nos últimos anos atuando como jornalista e professora, eu venho tendo muito mais oportunidades de degustar do que eu mesma imaginava. E agora, finalmente, entendo o que meu professor falava, em profundidade.
O conhecimento de vinhos precisa de degustação, senão é como aprender a nadar pelo computador ou num simulador. Sem se jogar na água nada acontece, por melhor que seja a teoria.

 Na foto ao lado, os rosés de uma recente degustação de vinhos brasileiros, um pouco mais difícil do que deveria ser, mas igualmente importante, pois perceber diferenças e nuances é mais fácil quando os vinhos são diferentes do que quando são parelhos. Isso faz parte do aprendizado de quem quer conhecer vinhos.
No entanto, muita gente pergunta como fazemos para dar nota, muita gente questiona a capacidade do degustador, questiona qual a diferença entre um vinho com 89 e um vinho com 90 pontos. Bem, vai aqui um exemplo claro: quem já ficou de recuperação ou de exame por causa de meio ponto sabe bem qual é a diferença.
Os críticos irão dizer que os critérios de avaliação sensorial são todos subjetivos e eu vou concordar. No entanto, quem degusta muito sabe em uma 'cheirada' e em um gole se está diante de um vinho bom ou de um vinho ruim. As nuances das notas estão no meio disso.
Na verdade, o mais difícil é quando os vinhos são muito parecidos.
Lá na Itália eu tive uma discussão dessas com um produtor de Barbaresco. A minha questão era: um vinho que não é ruim é um vinho bom? Voltando à metáfora das notas escolares, é como se formar tirando sempre a nota sete. Você tem o suficiente para ser um aluno formado, mas você tem o que importa para ser um potencial profissional em qualquer área? Parece-me que não.
Os grandes vinhos sempre se sobressaem nas degustações, mesmo às cegas e mesmo sem você saber nem qual o 'tema' daquela degustação. Surpresas acontecem é claro, mas as notas 50 e as notas 90 são sempre facilmente percebidas.


 Tenho que confessar que tenho degustado muitas coisas interessantes e a Itália parece estar no centro das atenções ultimamente (embora nesta semana eu tenha degustado junto com meu colega Eduardo Milan, mais de 40 vinhos tintos brasileiros para o GUIA ADEGA de Vinhos do Brasil). Na foto acima estão os dois brancos e os seis tintos provados com a presença do enólogo da Castellare di Castellina, de duas distintas regiões italianas, a Sicília e a Toscana. Aconteceu na importadora Vinci na semana passada e foi um bom panorama de uvas e subregiões.
Na foto abaixo a degustação de ontem com 18 vinhos da Sicília, vários deles ainda sem importação no Brasil. Um painel excelente das uvas típicas dessa ilha tão característica (a branca Grillo, por exemplo e as tintas Nero D'Avola, Nocera e Nerello Mascallese) e de como vinhos com a mesma uva podem ser distintos em uma mesma ilha.


Hoje houve uma mudança total de rumo, com uma degustação de um vinho Sauvignon Blanc 2008 e quatro vinhos Cabernet Sauvignon do rótulo mais importante da vinícola Santa Rita, o Casa Real. Degustamos na presença da enóloga Cecília Torres - no meu entender ela está entre os cinco enólogos que modificaram a vitivinicultura chilena nos últimos 20 anos - as safras de 2008, 2007, 2004 e 2002.
Vinhos excepcionais, longevos, encorpados, poderosos como o terroir de onde vem.
É assim que se aprende, perguntando ao enólogo, provando os vinhos em suas diferentes safras, percebendo as pequenas nunaces.


Se isso puder ser feito em equipe, como fazemos para a revista ADEGA (foto abaixo com o grupo completo de degustadores) melhor ainda, pois mesmo degustando às cegas temos a chance de trocar impressões, de comentar, de multiplicar o conhecimento e a percepção.


Para os que querem se aventurar nesses campos, no entanto, um aviso: é preciso cuspir muito. Sim, é feio e ninguém deve ser fotografado fazendo isso jamais, mas é a única maneira de 'sobreviver' nesse mundo. Sim, às vezes é cruel fazer isso, mas é possível. E aqui vai meu testemunho: se eu fui capaz de cuspir mais de 500 Barolos e Barbarescos em cinco dias de degustação, qualquer um consegue.
Mas antes de cuspir é preciso dar tempo ao seu cérebro, ao seu nariz e à sua boca para captarem o que existe no vinho, para buscarem as semelhanças, para 'interagirem' com a memória dos outros vinhos que você já degustou.
E assim, com um pouco de estudo e de conhecimento teórico - e quem sabe com um bom professor - você consiga aproveitar ainda mais tudo o que o mundo do vinho pode oferecer!
Um excelente final de semana e bons brindes!



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Mamma Itália

Imaginando que tudo tenha ocorrido conforme programado, hoje, segunda-feira 14 de maio, estou na Itália, mais especificamente em Alba, província de Cuneo na região do Piemonte, norte do país.
 

Vim para cá a convite da associação Albeisa, que reune os produtores dos vinhos Barolo, Barbaresco e Roero, para um evento que se chama Nebbiolo Prima, a apresentação das novas safras desses três importantes vinhos italianos.
A programação é intensa e começa no final da tarde de domingo durando até a manhã da sexta-feira. Inclui seminários sobre viticultura, degustações às cegas, visitas a vinícolas e, é claro, uma festa.
Na sexta-feira deixo a região do Piemonte em direção ao Vêneto, para outro evento. Desta vez o Vino in Villa que celebra os espumantes Prosecco Superiore.
Vou ficar hospedada na linda cidade de Conegliano, que muitos de vocês conhecem por fazer par com Valdobbiadene nos rótulos dos Proseccos. Sim, elas são as duas cidades mais importantes dessa DOCG.
A foto acima - que eu fiz no inverno do ano passado - mostra uma parte de um dos mais importantes vinhedos da região, o de Cartizze, a área mais nobre para produção das uvas para os espumantes que levam a denominação de origem no rótulo.
Agora, que é primavera, imagino que verei as plantas já brotadas e cobrindo os vales vertiginosos de verde intenso.
Por aqui a programação também inclui degustações e visitas, além de uma boa festa num castelo da região.
Na segunda-feira de manhã, dia 21, eu partirei na direção de Veneza, que fica apenas a uma hora de trem de Conegliano, para o último compromisso da viagem.
 Fui convidada pela vinícola Bisol (na foto acima o enólogo e um dos herdeiros Desiderio Bisol), empresa mundialmente conhecida por seus Proseccos, para conhecer um novo projeto deles, na ilha de Mazzorbo, que vocês podem ver na foto abaixo.
Essa ilha fica na mesma laguna onde fica Veneza, no entanto está a 30 minutos de barco da cidade famosa. Na foto vocês podem ver duas ilhas, a que está ao fundo - na parte de cima da foto - é Burano, ilha famosa pelas rendas delicadas, feitas por suas moradoras.
 Em Mazzorbo, aqui vista mais de perto, fica um vinhedo da uva Dorona, uma uva branca que - acredita-se - seja cultivada na região desde os anos 1400 e que parecia perdida para o mundo do vinho. A Bisol a encontrou, recuperou o vinhedo e lançou neste ano a primeira safra desse vinho, com uvas vindas de apenas um hectare de terras, que eles chamam de Venissa. Junto ao vinhedo há uma hospedaria e um restaurante onde a chef recria pratos típicos venezianos que se harmonizam não apenas com os vinhos brancos, rosés e espumantes da Bisol, mas com variados tintos italianos também.
 Imagino que essa será uma visita cheia de surpresas e prometo tirar muitas fotos e trazer muitas novidades.
 Duas fotos dos canais que atravessam a ilha de Burano (não confundam com Murano, ilha próxima de Veneza, famosa pelos cristais que produz), que eu pretendo conhecer ainda que rapidamente.
Estarei de volta no dia 25 de maio, com muitas novidades.
Bons brindes e excelente semana para todos!
Ciao!

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Convito di Romagna


Contando que nenhum vôo atrasou, hoje, domingo, estou na Itália, mais especificamente em Faenza, uma pequena cidade do norte, a leste de Bologna em direção ao mar Adriático.
Fui convidada, assim como meu amigo e também jornalista Marcos Pivetta, para participarmos do Vini ad Arte, um evento anual que apresenta a nova safra dos vinhos tintos da uva Sangiovese da região da Emiglia Romagna.
Os produtores (foto abaixo) se reúnem em uma espécie de consórcio, para favorecerem a divulgação e comercialização de seus vinhos e promovem o evento dentro do Museu de Cerâmica de Faenza, reunindo duas coisas que os italianos tanto apreciam, arte e vinhos.

Para os jornalistas (acredito que também estarão colegas de outros países), a programação é extensa e dura dois dias inteiros, com visitas a vinícolas, palestra sobre a uva Sangiovese nessa região, degustações e, é claro, jantares muito especiais, incluindo um restaurante em Ímola que tem duas estrelas no Guia Michelin.
Faz frio, a temperatura prevista para este final de semana não deve ultrapassar os 10/11 graus, mas isso favorece o consumo dos tintos e ajuda na elegância das mulheres (principalmente das gordinhas como eu).




As fotos acima são da edição do ano passado desse evento e mostram o Museu de Cerâmica (que está prestes a ser tombado pelo patrimônio histórico e cultural da Unesco) e o público da degustação.
Na segunda-feira, logo após o término do evento, vou para a cidade de Verona, onde vou visitar a vinícola Cesari, importante produtora de Amarones na terça-feira e no mesmo dia sigo para Conegliano, para conhecer meia dúzia de produtores de espumante Prosecco (de verdade!) até 5a feira à tarde.
Assim, já deu para perceber que não terei tempo livre para escrever no blog por alguns dias, mas com certeza volto cheia de novidades para contar.
Enquanto isso, bons goles e Salute!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Prosecco Não É Sinônimo de Itália!

Algumas vezes não entendo este país (não que exista alguma novidade aí ou que não sobrem motivos de indignação em muitas áreas de nossa sociedade). Até onde eu sei (talvez tenha que procurar informações em outro lugar), é proibido fazer propaganda de bebidas alcóolicas nos horários diurnos neste país.
Ainda assim, na manhã de hoje, um desses programas que apresentam de tudo (de loja de móveis a carros, cobertores e alimentos) estava em uma famosa importadora de vinhos do país, mostrando as ofertas deles e falando que Prosecco é sinônimo de espumante italiano. A frase era mais ou menos assim: "Então é Cava na Espanha, Champagne na França e Prosecco na Itália, não é?" O vendedor da loja (de forte sotaque estrangeiro) não corrigiu o apresentador em nenhum momento, ao contrário, para mostrar uma de suas ofertas de Cava, ele reforçou a informação errada.
Francamente, por que não ensinar as pessoas a beberem corretamente, a saberem o que estão colocando dentro de seus corpos? Quem ganha com isso? Vão vender uma caixa de garrafas a mais para um consumidor desavisado?
Vejam só, não quero ser de um didatismo pedante mas acredito que o consumidor consciente também tem 'valor agregado' e isso faz a indústria como um todo valer mais. Enquanto continuarem tratando o consumidor como palhaço (por conta disso a fantasia de garrafa de 'Champanha' da imagem acima) ele terá o direito de continuar comprando vinhos de qualidade inferior, por preço baixo só porque está estampado o nome de um país produtor tradicional na prateleira.
Para quem não conhece (pois ninguém tem a obrigação de nascer sabendo), Prosecco é uma uva italiana importante, cultivada originalmente na região do Vêneto, de onde saem elegantes espumantes naturais, principalmente perto da comuna de Valdobbiadene. Aliás, segundo uma legislação nova, do final de 2009, a uva nem pode mais ser chamada de Prosecco, seu nome é Glera (um nome antigo que já era utilizado em algumas regiões) e Prosecco passa a ser o espumante da DOC reconhecida, que tem uma área ainda mais específica e diferenciada, onde são produzidos os 'Prosecco Superiore', com regras rígidas e limitantes.
Mas não podemos esquecer dos Franciacorta, uma DOC do Piemonte, que produz maravilhosos espumantes, alguns de estilo similar aos Champagnes e com preços muitas vezes também similares. Dos adocicados Asti, preparados com a uva Moscato Bianco e de fermentação única, cujo nome 'Asti' é também o nome desse método de produção. Além desses, outro espumante popular na Itália é o feito com as uvas Lambrusco na região central da Emiglia Romagna, eles variam tremendamente em estilo e qualidade, e alguns até não são espumantes naturais (o gás é adicionado depois).
E, para finalizar, existem espumantes em praticamente todas as regiões italianas, mesmo que não tenham um nome demarcado conhecido internacionalmente.
Fica aqui o aviso para importadores, vendedores, distribuidores e consumidores: Prosecco não é sinônimo de espumante italiano e o conhecimento não ocupa espaço, ao contrário, cria massa crítica. Bons e HONESTOS goles para todos!