E mais, sugiro que no caso do artigo do site da Veja, comecem pelos comentários e depois leiam o texto, e desconsiderem o que a jornalista chama de 'uva de qualidade', ela quis dizer 'uva fina' mas como deve ser mais da área de economia, o erro até se justifica (vá lá...).
http://veja.abril.com.br/noticia/economia/vinho-tambem-entra-na-mira-do-protecionismo
http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/79417_AFASTA+DE+MIM+ESSE+CALICE
Agora faço algumas considerações que são minhas e que não representam necessariamente a visão de nenhuma das empresas para as quais eu sou prestadora de serviços (não trabalho para nenhuma importadora ou produtora nacional de vinhos), que isso fiquem BEM claro:
1- Estamos olhando para o lugar errado. O protecionismo aqui está relacionado a ENORME indústria dos vinhos de mesa, ela sim a grande prejudicada pela entrada dos 'reservados', 'santas do pau oco' e os lambruscones genéricos no mercado nacional.
Como eu disse há alguns dias, o brasileiro bebe mal. Todos os brasileiros bebem mal, inclusive a maioria dos muito ricos que só bebem bebidas estrangeiras pois elas têm marcas famosas.
O consumo de vinhos finos é ínfimo quando comparado ao consumo de vinho de mesa. Esses vinhos custam infinitamente mais barato, pois as uvas de mesa são muito produtivas, o vinho é mais fácil de fazer e se ficar muito ruim é só colocar açúcar que resolve.
Essa é uma das verdades que ninguém quer encarar.
Quando as pessoas pensam nas instituições representativas do setor, elas não pensam que esses setores representam também os vinhos de mesa.
É como se fosse possível olhar o Rio de Janeiro e não ver as favelas encostadas no morro. É impossível, mas mesmo com tudo aquilo na 'cara' da gente, chamamos a cidade de 'maravilhosa' e mudamos o nome das favelas para 'comunidades'.
Nós, arrogantes do mundo do vinho, fazemos questão de não ver nada disso.
E quando o mercado é inundado de produtos de baixa qualidade (muitas vezes feitos especialmente para o 'gosto' brasileiro por grandes empresas estrangeiras do setor) corremos para proteger o Bordeaux nosso de cada dia.
É fácil não ver que a conta de alguns dos bons vinhos finos nacionais é paga com muito Sangue de Boi, Chalise e São Tomé.
Quase todo mundo nesse chatíssimo mundo do vinho nacional (importadores, pseudojornalistas e enófilos) prefere não saber que existem centenas de milhares de famílias que vivem (isso mesmo VIVEM) da produção de uvas de mesa para a fabricação de vinho.
Eu, em minhas andanças pelo sul, já cansei de escutar de produtores rurais que fizeram a mudança dos vinhedos de uvas de mesa para uvas finas e que estavam considerando voltar atrás. Por que? Pois é mais barato e mais rentável produzir uvas de mesa. Não há tanta necessidade de cuidados nos vinhedos (como os compradores de uvas finas exigem), os parreirais em latada podem produzir toneladas por hectare (no caso das uvas finas, pequena produção é uma das condições para a compra de uvas) e a diferença de preço entre as finas e as de mesa muitas vezes não compensa o investimento.
Dirigir essas uvas para o suco de uva tem sido uma alternativa viável e que tem mostrado bons resultados, mas ainda não a ponto de dar vazão à toda a produção.
E esse vinho de mesa é o que a enorme maioria das pessoas bebe. Que ninguém se engane.
Vou mais além: o gosto pelo açúcar domina nossos paladares e é por isso que os 'reservados' chilenos e argentinos ganham tanto mercado, são vinhos de uvas finas adoçados (demi-sec) e isso só está escrito no contrarótulo.
A briga para a mudança nos rótulos não se relaciona com os vinhos de alta gama e sim com essas coisas que entram no mercado dizendo que são uma coisa e são outra. Ninguém lê contrarótulo, só nós, os chatos dos enófilos.
É claro (quem nunca escutou?) que o consumidor médio vai dizer: "mas eu tomo aquele chileno reservado e ele não é amargo como o brasileiro que eu tomo".
Recentemente fiquei sabendo que uma importante marca argentina, vendida em muitos restaurantes do RS por mais de 60 reais, é um Malbec 'suave', mas isso está bem pequenino no contrarótulo.
Nós bebemos mal.
2- Muitas das pessoas que estão se colocando contra as medidas protecionistas (não estou dizendo que sou a favor delas, por que não sou) são pessoas malacostumadas a beber de graça, a fazer viagens de graça. Pior, muitas delas são pessoas que recebem bons salários como consultores das importadoras, como professores de 'instituições', como pseudojornalistas e que tem os grandes vinhos ganhos em suas adegas a perder, se essas medidas entrarem em vigor. Do meu lado, gente conhecida e até amiga em certos momentos, já pediu para o produtor brasileiro mandar uma caixa de vinhos para a casa dele, para ele 'divulgar'.Sim, o produtor que faz isso está errado. Amarra-se à ilusão de que ganhou um aliado.
Mas pior, o enófilo que age assim é um canalha. E (felizmente não é a mesma pessoa da qual escutei o pedido da caixa de vinhos) já ouvi de outros - assim que o produtor nacional saiu da sala - o seguinte comentário "eu estou tentando tomar o vinho dele para ele não ficar chateado, mas que é ruim, é ruim".
Sinceridade pessoal! Sinceridade! Se não está bom fale, mas não em meio a outros 'formadores de opinião'. Se você tem cara de pau suficiente para pedir uma caixa de vinho, então tenha cara de pau de chegar ao produtor com colocações bem fundamentadas, para dizer para ele o que achou do vinho dele.
Pedir uma coisa pela frente e enfiar a faca pelas costas é coisa de gente que merece o governo que tem.
3- O vinho brasileiro custa caro. E o importado também. Semana passada, almoçando com uma amiga portuguesa, ela pediu um vinho de sua terra que custava na carta R$ 102,00. Um vinho caro, no meu entender. Perguntei para ela quanto esse vinho custava em Portugal e a resposta foi 8 euros! OITO! Algo em torno de 20 reais, que chegou à nossa mesa custando cinco vezes mais.
Sim, os impostos são caros, mas quanto custa a ganância? Ah! dessa ninguém fala não é?
Não falam pois é 'chique' poder tomar vinhos caros, vinhos importados. Se você está tomando um (bom) vinho caro nacional você é bobo, mas se está pagando cem reais por um vinho de oito euros você é bacana. E isso, como se explica? A margem de lucro dos importadores é insana, dos donos de restaurantes é impensável. Lembram daquele link do Oscar Daudt que eu reproduzi aqui, no qual ele fazia um estudo do preço de alguns vinhos na origem e aqui no país?
Pois é, dessa ganância do distribuidor nacional ninguém fala não é?
4- Uma pergunta: vocês acham justo que os vinhos chilenos, argentinos e uruguaios entrem no país sem pagar impostos enquanto os produtos nacionais pagam uma carga tributária altíssima (todo mundo sabe que os impostos no Brasil estão entre os mais altos do mundo)? Isso faz sentido? Isso gera alguma espécie de competitividade?
Isso posto, sou contra medidas protecionistas que afetariam muito mais o Chile e Portugal, pois existem acordos do Mercosul que viabilizam as trocas com Argentina e Uruguai.
Isso é sacanagem, é cobrir um santo descobrindo outro. (E estou apenas mencionando os países que mais exportam para o Brasil). É pensar que os consumidores não irão reagir.
Por que, ao invés disso, não discutimos impostos (em geral) mais razoáveis e damos à indústria nacional a possibilidade de ser competitiva mostrando qualidade e preço? Por que não proibimos (sim proibimos) a entrada de produtos adoçados no país ou aqueles carbonatados (como os Lambruscos genéricos)? Proíbam de vez, façam o consumidor encontrar alternativas, sejam elas importadas ou nacionais, mas em igualdade de condições e de preço.
Proteger os nacionais que continuam pagando impostos absurdos e sacanear com os importados que trabalham direito é uma vergonha. É querer ganhar inimigos onde precisamos encontrar aliados. É fazer com que as pessoas que já têm preconceito contra os vinhos nacionais alimentem um ódio nada silencioso. É um retrocesso.
Que o Brasil é a bola da vez, isso é verdade. E que ninguém se engane que alguém (produtor, importador, e muitos enófilos) está nessa história por amor à camisa ou pela 'arte' do vinho. O negócio é dinheirto gente, como sempre foi. Dinheiro grande, e essa briga é de 'cachorro grande'.
Com a crise européia e americana, os maiores mercados consumidores de vinhos estão retraídos e o Brasil se apresenta como a tábua de salvação para muitos países produtores, e não adianta querer ser graveto nessa enxurrada, pois ela vai continuar.
O brasileiro bebe mal, bebe marca e nome estrangeiro no rótulo e contra isso só educação e preço competitivo, que eu não acredito, será atingido com nenhuma salvaguarda.
Alternativas pessoal que manda!
Respeito pessoal que consome!
Bom senso pessoal que escreve sobre vinhos (a questão nunca tem apenas um lado)!
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OBS: Este assunto teve inúmeros desdobramentos em variadas mídias nos dias subsequentes à publicação desta postagem. Para saber um pouco mais do que foi publicado aqui no blog leia também:
http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2012/03/os-varios-lados-de-uma-mesma-historia.html
http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2012/03/algumas-observacoes.html














