Colheita 2016

Colheita 2016
Seja bem-vindo! E que nunca nos falte o pão, o vinho e a saúde e alegria para compartilhar!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ecomuseu Dal Pizzol em Faria Lemos (RS)


Uma vez que eu me sinto uma paulistana com a alma itinerante (que neste época do ano prefere estar na  Serra Gaúcha) vou responder a uma pergunta que sempre me fazem: Quais são meus lugares preferidos na Serra?
Pois bem, um dos principais é o Ecomuseu da Vinícola Dal Pizzol, no distrito de Faria Lemos - que pertence a Rota das Cantinas Históricas. E como já escrevi várias vezes sobre esse lugar, pedi para a amiga Paula Brum (gauchíssima advogada e viajante apaixonada) a licença para colocar o link (abaixo) de sua visita ao local. Estávamos juntas, num grupo de jornalistas, e eu adorei o olhar dela sobre esse lugar que tanto me apaixona.
Espero que vocês aproveitem  e façam o possível para ir lá conhecer!

http://www.mochilinhagaucha.com.br/2016/02/vinicola-e-ecomuseu-dal-pizzol-vinhedo.html

P.S.: Abaixo o link do meu texto, escrito para este blog em 2011, quando foi feita a primeira colheita no 'Vinhedos do Mundo' da Dal Pizzol, pra quem quiser saber mais.

http://vinhoverdeamarelo.blogspot.com.br/2011/02/vinhedo-do-mundo.html


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Vinho e Preconceito


Vinho e Preconceito

Sou fã confessa da escritora inglesa Jane Austen, que morreu em 1817 e deixou livros que - embora classificados como romances - são um testemunho (e uma crítica) da sociedade inglesa de sua época.
Uma das minhas obras preferidas é 'Orgulho e Preconceito', de 1813, onde a Srta. Elizabeth Bennet, segunda filha de uma familia numerosa e pouco influente, divide-se entre a atração e o orgulho (orgulho no sentido negativo da palavra) pelo influente e nobre Sr. Darcy. Ele, por sua vez, também sente-se atraído pela jovem Elizabeth, mas é atormentado pelo preconceito que sente pelos modos da família da jovem. Os dois sentimentos se intercalam e mudam de personagem conforme a trama do livro avança.
Orgulho e Preconceito são matéria corrente no mundo do vinho. Não apenas no Brasil, estejam certos. Suspeito até que existem em todas as partes, mas por motivos diferentes.
Nos países mais tradicionais, há preconceito das empresas mais velhas com as mais jovens, há arrogância de achar que porque fazem há mais tempo, fazem melhor. Nos países bem sucedidos do novo mundo há preconceito contra quem produz grandes volumes, contra as cooperativas (na Europa isso existe mas é mais discreto) e contra os pequenos produtores que atuam sós. O que todos parecem ter é um orgulho excludente, ao achar que o que fazem em suas caves é cantinas é o melhor produto e - por consequência - o que qualquer outro produtor faz é ruim.
Já o consumidor, principalmente o europeu, quer variedade, preço e - quando tem maior poder de compra - qualidade superior e elegância. Não interessa de onde vem. Pequeno, grande, nativo ou estrangeiro. O que é bom é bom. E ponto.

O 'bullying' com o vinho brasileiro

Nada é fácil neste país, não é mesmo? Apenas a vida dos políticos, ao que tudo tem indicado historicamente.
Orgulho, arrogância, preconceito e 'bullying' (palavra inglesa que significa usar a força física ou a intimidação psicológica para fazer com que alguém faça o que desejamos ou se comporte como desejamos) são matéria presente seja na produção de vinhos no Brasil ou no seu consumo.
O que me preocupa mais é o último. Concorrência entre empresas, produtores, importadores ou vendedores é brutal e, de certa forma, natural. O que não é bom para eles - preciso salientar - é que sejam menos capazes de buscar soluções conjuntas do que seria necessário num país que consome menos de 2 litros de vinho por pessoa ao ano. Mas essa é outra questão.
Meu ponto é o consumidor, ignorante ou enófilo, viajado ou residente, rico ou pobre que bebe procedência (o país de onde vem o vinho), propaganda e nome de uva. Em geral é esse personagem que profere frases como:  "vinho brasileiro não presta", "o Brasil não tem terroir para produzir vinhos bons", "o Brasil copia mal o que se faz lá fora e vende isso caro", "só bebo se for estrangeiro". E por aí vai. Quem trabalha com vinho (brasileiro ou não) já escutou ao menos uma dessas.
O que está por trás desses comentários é um conjunto de fatores atuais e históricos. Os atuais são que o preço do vinho brasileiro ainda é caro em comparação com os do mercosul (e as raízes disso são políticas e econômicas, e não apenas do Brasil, mas de nossos principais concorrentes cuja produção de vinhos recebe incentivo de seus governantes, na direção oposta do que acontece no Brasil) e que o brasileiro recebe influências deleutérias da globalização e da publicidade estrangeira.
Isso sem contar que muitos brasileiros se sentem superiores ao falar mal do Brasil e bem de outras nações, achando que os produtos que vem dessas nações não são também frutos de bem estruturadas campanhas de marketing e que ele é a parte viva de uma ação que deu certo.
Por outro lado, o produtor brasileiro - muitos deles, infelizmente - parece não acreditar em publicidade séria, em ações contundentes de marketing, em mudanças de posicionamento. Ao agirem assim passam a imagem de que não acreditam que o próprio vinho tenha condição de competir com os outros e isso os atrasa.
Os fatores históricos dizem respeito ao fato de que 'história' no Brasil é matéria 'chata' e corrompida por tudo que não se pode falar ao longo dos anos de repressão, e que tudo que nos valoriza de alguma forma é apresentado no formato do 'bobo alegre' que - no final das contas - perde o mérito pela pobreza da execução.
O brasileiro não sabe (e isso é mais ignorância do que culpa específica) da nova realidade dos vinhos brasileiros. O brasileiro não foi convidado para essa festa regada a espumantes, brancos, rosés e tintos que exaltam nossas qualidades, nosso trabalho, o aprendizado de décadas e gerações, a tecnologia que o mundo todo utiliza e nós também, as pesquisas que seguem sendo feitas em Champagne e em Garibaldi, na Toscana e no Alto São Francisco.
O brasileiro não tem como se orgulhar de uma história que não lhe foi mostrada, de uma realidade não compartilhada. Mas ele poderia - ao menos - ter a humildade de tentar conhecê-la antes de ventilar seus preconceitos, de vociferar suas opiniões unipartidárias.
O mundo do vinho é múltiplo. Sempre. Tem para todos os bolsos, para todos os gostos e para todos os momentos. Quem gosta mesmo de vinhos não tem preconceito, não bebe 'preço', 'procedência' ou uva. Isso vai de encontro à própria natureza da produção, que precisa se curvar aos caprichos do tempo. Uma safra excelente, outra mediana, outra fraca. Se o 'gosto' das pessoas fosse assim "sério", cada vinho 'maravilhoso' feito numa safra ruim nunca mais seria provado. 
É orgulho de ser bobo, é preconceito consigo mesmo, é bullying com quem faz e com quem vende. É vergonha de provar algo novo e ter que engolir a língua por ter falado mal.

É ignorância, e é triste.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

NOVA SAFRA


O título de minha última postagem aqui no blog - em outubro de 2013 - foi: "De Volta à taça".  Hoje ele é emblemático para mim, pois volto ao blog depois de mais de dois anos.
Muita coisa mudou em meu entorno, como a mídia e as minhas relações profissionais. Mas outras coisas seguem iguais como a minha ligação com o vinho brasileiro e meu desejo de que ele receba a atenção que merece.
Volto ao blog por conta da (boa) influência de algumas pessoas com as quais convivi nos últimos dias, blogueiros (as) sérios na atuação e divertidos no companheirismo.
Percebi que hoje este espaço tem um peso maior na comunicação do que tinha quando eu o comecei (em 2010) e ainda tenho em mim a intenção de comunicar com seriedade e alegria utilizando esta mídia com respeito.
A safra de uvas de 2016 recém começou no Brasil. Uma safra difícil em muitos aspectos, mas nem tão ruim em qualidade como os críticos se apressam em dizer. De certa forma parece que o mundo do vinho reflete os desafios do próprio país...
No entanto, penso sempre em uma frase de um escritor famoso (creio que é de Victor Hugo) que diz assim: "Tudo o que é necessário para que o mau prevaleça é que o bem não faça nada". Então, eu escolho (assim como muitos outros!) trabalhar, enfrentar e ultrapassar a onda de pessimismo que toma conta de muitos setores, para que saiamos fortalecidos do outro lado. E de taça cheia!
Saúde, alegria, trabalho e bons vinhos em 2016!
Eu volteeeiiiiiiiiiii!

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Voltar à Taça

21a Avaliação Nacional de Vinhos




Há algo de reconfortante numa taça de vinho e, acredito eu, especialmente um vinho tinto. Não, não que eles sejam os meus preferidos. Cada vinho tem seu momento e sua hora ideal, por isso evito dizer que prefiro este ou aquele. Creio que, na verdade, prefiro todos os bons vinhos!
Mas há, num dia qualquer, um conforto em ter nas mãos uma taça de um bom vinho tinto. É um conforto sensorial em muitos sentidos. Seja na forma e volume de uma taça grande corretamente preenchida, seja nos aromas frutados ou amadeirados ou complexos ou fechados, seja na coloração violácea, carmesin, rubi ou negra, seja na densidade mais pesada ou mais leve, em sua textura na boca, nas sensações que provoca e no convite que deixa para mais um gole.

Participar da 21a Avaliação Nacional de Vinhos, em Bento Gonçalves, é para mim como ter uma taça de um reconfortante vinho tinto em minhas mãos, depois de um longo dia de trabalho, numa poltrona confortável, sob a luz difusa de um abajur.
Demorei para me sentir assim, uma vez que considero esse evento o equivalente do 'Oscar' do vinho brasileiro.
Não é uma competição, não é um concurso, mas guarda em si toda a ansiedade e todos os desvarios de um desafio entre vinícolas.


Nesta última edição, realizada no sábado dia 28 de setembro, uma frase muito repetida foi a de que a avaliação atingiu a maioridade total, aos 21 anos. Concordo. Havia no ar uma sensação de coisas bem assentadas, bem feitas, de ordem e dedicação que transmitem uma certa tranquilidade a um evento que une mais de 800 pessoas, por ao menos cinco horas consecutivas de palavrório e serviço de vinhos. Não é pouco para um evento que representa uma indústria de qualidade ainda tão jovem. 
Minha percepção me falou de coisas contraditórias, como essa tranquilidade advinda da experiência de mais de duas décadas realizando um evento que cresce aos poucos, da organização primorosa da Associação Brasileira de Enologia, que atribui responsabilidades grandes à todos os envolvidos. Mas muitos desses envolvidos (e vai aí a contradição) são absolutamente jovens, vários deles pouco mais velhos do que a Avaliação em si, e trouxeram ao evento deste ano uma estabilidade incrível e, ao mesmo tempo, uma certa descontração que só a juventude é capaz de ter.



Já estive em várias edições na última década. Já vivi momentos lindos, momentos constrangedores e momentos que me ensinaram coisas para utilizar no futuro. No evento, muito mais do que conhecer os 16 vinhos mais representativos da safra deste ano, o que se vê é trabalho, é gente, é dedicação, competição, superação. E por tudo isso necessitamos que o vinho na taça seja reconfortante, seja poesia como as palavras finais do presidente Luciano Vian (foto abaixo) em seu primeiro discurso oficial, seja informação como na surpresa do jornalista premiado com o Troféu Vitis, Irineu Guarnier, seja consistência como no trabalho do outro homenageado, o enólogo Mario Geisse, seja surpresa como na indicação da vinícola Monte Rosário, que teve seu primeiro vinho fino (um tinto da uva Teroldego) já indicado entre os mais representativos.



O vinho na taça precisa ser tudo isso. E tudo isso não é fácil. É um desafio e tanto para uma indústria que precisa se adequar a um país que não valoriza seus próprios produtos, a não ser no sentido fiscal.
Sentada entre os mais de 800 participantes, pensando nos excelentes brancos que passaram por minha taça, nas bases de espumantes e nos tintos promissores desta safra de 2013, olho as coisas com olhos de contemplação, com olhos de quem, finalmente, consegue enxergar um pouco além de rótulos. Penso nas variadas sensações do vinho, em seu poder a taça, em sua (pouca, infelizmente) participação nas mesas dos brasileiros, penso que o vinho nacional foi, enfim, tremendamente bem explicado na gaita de Renato Borghetti, que tocou ao final do evento: é tradição gaúcha, com sobrenome italiano, tocada como jazz, intrepretando uma poesia musical de Luiz Gonzaga. É Brasil, e é lindo de ver e bom de beber!




quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quer saber mais? Quer degustar? Que tal visitar?


Uma taça para pensar...

No Museu da Ciência de Londres há uma área especialmente dedicada aos alimentos e bebidas. É uma exibição interativa e muito interessante chamada 'Food for Thought' (Comida para Pensar ou Alimento para as Ideias, como queiram) que fala de nutrição e processamento de alimentos.
Não sei exatamente porque esse local (que infelizmente não visito há muitos anos) me veio à memória hoje, mas é por conta dele que existe o título acima: uma taça para pensar.
Estive hoje num grande e importante evento anual dos vinhos chilenos no Brasil que, mais do que bons goles, me deu muito o que pensar.
Como todo enófilo sabe (e até mesmo o consumidor regular de vinho), o Chile tem muito poder nessa área da economia. O vinho para o Chile está entre os 5 principais produtos de exportação, o que não é dizer pouca coisa num país rico. Existem centenas de empresas de todos os tamanhos dedicadas a fazer desde vinhos industriais até ícones, passando por líquidos muito despretensiosos e chegando a néctares surpreendentes. Acredito que é exatamente assim que deve ser um bom país produtor do Novo Mundo: vários estilos de vinhos, vários preços e muita (e saudável) concorrência interna.
Mas eu me adiantei um pouco...
Nesse evento ocorreu um seminário com uma degustação de 11 vinhos que pretendia mostrar a diferenciação das três subregiões chilenas: Andes, Costa e Entre Cordilheiras. Para essa parte do evento foram convidados basicamente sommeliers-chave, alguns enófilos e a mídia.
Enquanto eu aguardava minha vez para entrar na sala comecei a pensar nas pessoas que estavam lá, fora os sommeliers, é claro, pois é uma necessidade de suas profissões que eles conheçam e se atualizem sobre as novidades do setor. Eu estava pensando na mídia mesmo, assunto recorrente neste blog.
No entanto, desta vez não estava pensando nos colegas midiáticos para criticá-los, como vez por outra faço, eu estava pensando que somos poucos, que somos os mesmos. Há muitos anos. Temos os mesmos vícios, as mesmas apreciações e os mesmos desafetos e trabalhamos para uma meia dúzia de publicações, algumas ainda bem fortes, mas somos poucos.
Sim, nossos espaços são restritos e cada vez mais raros. E isso combinado com o fato de que muitos de nós não se incomodam de trabalhar para veículos de imprensa enquanto ganham dinheiro de produtores e importadores, me fez pensar que estamos num beco sem saída, ou - para ficar na metáfora da comida - trancados dentro de uma geladeira com comida estragando.
Um dos muitos entraves na comercialização de vinhos é a incapacidade de aumentar a base consumidora, de falar com novos públicos que - muitas pesquisas apontam - estão àvidos para saber mais sobre vinhos. E quem 'fala' com as pessoas senão a mídia?
Os eventos falam também, mas só são multiplicados no momento em que caem 'na boca do povo' e nestas épocas o que está caindo na boca do povo é que vinho faz bem pra saúde mas é caro, que vinho é bebida alcoólica portanto vicia e pode ser o vilão que irá desestruturar o trânsito, as famílias, o país.
Que vinho brasileiro é ruim e que importado é bom, que precisamos nos despir de preconceitos na frente dos produtores e depois - pelas costas - dizer que preferimos um Bordeaux (seja bom ou ruim, mas é Bordeaux certo?).

Trocando de taça

Quando entrei na sala, super bem organizada como é o padrão do local onde foi feito o evento, e olhei para a mesa com uns tantos enólogos das vinícolas chilenas, me perguntei se os brasileiros conseguiriam "um dia quem sabe" sentar-se numa mesa como aquela e apresentar seus vinhos em conjunto. Será?
Bem, é claro que cada um dos que falou tentou puxar a brasa para sua sardinha, como era de se esperar. É claro também que a concorrência entre alguns deles é feroz e direta, mas estavam lá. Estavam lá porque o Brasil é MUITO importante pra eles, porque nossas compras é que pagam eventos como esses, que precisam ser multiplicados pela mídia e pelos sommeliers para que mais vinhos sejam vendidos e a indústria fique ainda mais forte. É o ciclo virtuoso, um mecanismo que os brasileiros ainda não estão preparados para fazer operar.
Assim me ocorreu que essa combinação de mídia viciada e indústria não comprometida realmente não resulta em bons negócios. Sim, dá pra culpar a carga tributária, dá pra culpar o lobby cervejeiro, dá pra culpar a safra, as estradas ruins, o lobby sumermercadista. Dá pra culpar tudo isso. Mas o que dá para FAZER? Essa é a pergunta a ser feita. O que dá para fazer sem ficar medindo pernadas com seu vizinho de terreno como se a nossa produção vitícola ainda fosse coisa de 'mérica, mérica, mérica'?
O que dá para fazer para que exista espaço para todos?
Faço essa troca de taças pois estamos enfrentando uma crise feia, e vinho é artigo de luxo precisamente para quem a indústria necessita convencer a comprar sua garrafinha semanalmente.
A mídia está em crise, a Europa está em crise e por isso manda vinhos para cá a preços impensáveis 5 anos atrás, mas como a cotação do dólar subiu e nossos importadores querem seguir com seus altos lucros, estamos pagando cada dia mais caro por vinhos cada vez mais mequetrefes.
Enquanto isso a indústria brasileira vai à mingua, com alguns (poucos) se saindo bem - seja por conta de estruturas fortes de distribuição e marketing ou por terem pequenas produções e terem encontrado seu nicho no mercado - enquanto outros tantos vão mal, muito mal e se dedicando a um chororô digno de novela cucaracha. Mas sentar-se à mesa, fazer uma ação coletiva, ou peitar os grandes e comprar brigas importantes ainda são ações isoladas, das quais só escuto falar com muita discreção.
E discreção aqui não cabe muito. Quando um produto encalha na feira, vende quem grita mais alto e tem poder de negociação. Lei básica de mercado.
Precisamos pensar o vinho na garrafa, para que ele finalmente chegue até um número maior de taças.
Precisamos pensá-lo urgentemente e coletivamente.
Bebida para pensar!







quinta-feira, 25 de julho de 2013

Vinho de Missa e outros néctares santificados

http://revistaadega.uol.com.br/Edicoes/52/artigo164342-1.asp
Texto publicado na revista ADEGA, alguns anos atrás.

Santos néctares

Superando as diferenças entre as religiões, o fruto da videira se transforma para fazer parte de todos os rituais e crenças

por Sílvia Mascella Rosa


" O anjo Lúcifer foi obrigado a deixar o Céu e a companhia de Deus por sua vaidade e egoísmo. Veio habitar a terra e tomou por morada o Monte Vesúvio. De seu reino de fogo, Lúcifer começou a destruir tudo à sua volta. Jesus, entristecido com essa visão, começou a chorar e suas lágrimas caíram sobre as lavas do vulcão. Dessas lágrimas vertidas sobre as lavas brotaram videiras e delas fez-se o vinho Lacryma Christi (Lágrima de Cristo)."
Esta lenda é somente uma das tantas relacionadas com o conhecido vinho produzido no sul da Itália desde tempos medievais.
A utilização do nome "Lacryma Christi" criou confusão no começo do século passado com os portugueses do Douro que produziam o Vinho do Porto branco. Eles passaram a utilizar a imagem de Cristo no rótulo e o nome Lacrima Christi. Depois de um longo processo, os portugueses foram impedidos de utilizar o nome completo e atualmente usam somente a imagem e a palavra Lacrima.

Mas nem só de lendas e disputas vivem os vinhos ligados à religião. Tratada como a mais sagrada das bebidas, o vinho tem participação fundamental em diversas religiões e, em muitos casos, é feito especialmente para as celebrações religiosas. Seria fácil dizer que tudo remete a Jesus Cristo na Santa Ceia, mas essa história é muito mais antiga e envolve ritos pagãos em que o vinho era ofertado aos deuses como presente ou sacrifício e bebido em rituais, fosse com o objetivo de celebrar ou de provocar um embaçamento dos sentidos que "favoreceria o encontro e a comunicação com os deuses".
Raízes Bíblicas
Foi entre os judeus que o vinho passou a ter uma presença mais sóbria ligada à religião. A Bíblia conta que Noé, ao descer da arca ao final do dilúvio, plantou uma videira, como um gesto simbólico de celebração da vida. Está no Talmud o seguinte preceito: "Farás da tua mesa um altar ao Senhor" e nessa mesa está sempre presente o vinho. "Essa tradição vem dos tempos bíblicos e o vinho, para nós, representa a alegria e a felicidade, assim é produto essencial em todas as nossas celebrações", explica o rabino Michel Schlesinger, da Congregação Israelita Paulista.

O vinho ao qual o rabino se refere não é um vinho qualquer, mas um que obedece às leis da kashrut (conjunto de leis alimentares baseada nos preceitos do livro de Levítico) e que determinam o que é kosher (aprovado para ser consumido pelo povo judeu).
Na semana do Carnaval, um grupo de rabinos estava na vinícola Valduga preparando equipamentos para a vinificação da segunda safra dos vinhos kosher da vinícola. O rigoroso processo é feito somente por judeus praticantes e a vinícola quase parou um setor da produção por quatro dias, pois alguns equipamentos, como os tanques onde os vinhos são estocados, tiveram que ser enchidos com água por 24 horas e esvaziados por três vezes.
O rabino Michel explicou que o kosher do vinho precisa ser observado por um judeu praticante para garantir que o produto não é produzido para rituais pagãos (como acontecia na antiguidade) e, sim, para consumo do povo judeu. "Existe também o vinho mevushal, que sofre um processo de pasteurização, pois isso definitivamente o separa daquele que poderia ser consumido em outros rituais que não as festas judaicas", completa o rabino.
Até o ano passado a Casa Valduga só preparava os vinhos não mevushal, porém, neste ano, eles também serão feitos para a comunidade. A diretora comercial da Valduga, Juciane Casagrande, conta que a empresa precisa contratar esses rabinos para o processo de kasherização todos os anos, pois a certificação deles é dada a cada safra. "Mas assim aproveitamos a safra das uvas e, com a presença deles, também preparamos o suco, que é naturalmente mevushal, pois precisa ser pasteurizado antes do engarrafamento", revela Juciane.
As regras do Alcorão
O suco de uva brasileiro (quando recebe a certificação halal) também atende às regras da comunidade islâmica, que não permite o consumo de nenhuma bebida alcoólica. "Entendemos que o vinho é bom para o corpo humano, mas entendemos que seus malefícios superam os benefícios, portanto ele é proibido pelo Alcorão", conta Dib Ahmad el Tarass, gestor do núcleo de desenvolvimento da Halal Brasil, escritório comercial especializado em certificação para produtos adequados ao povo islâmico.
Halal é a palavra árabe que significa lícito. O gestor da Halal Brasil explica que aqui o processo de certificação é inovador, pois está atento não somente ao que ditam as regras do islamismo, mas também às regras de segurança alimentar e de boas práticas industriais. "É como uma ISO 9000 que existe há mais de mil anos", brinca Dib Ahmad.
fotos: Raquel Rohden
Suco de uva brasileiro, certificado para consumo da comunidade islâmica, tenta ganhar espaço no mercado internacional participando de feiras, como a de Dubai. Já o vinho preparado para a Eucaristia possui tradição no Brasil, produzido para atender as necessidades da Igreja Católica
A verificação envolve desde laudos laboratoriais e análises físicoquímicas, até a observação do conjunto de práticas operacionais, para certificar que em nenhuma fase do processo industrial entram produtos que sejam haram (ilícitos), como, por exemplo, algum corante, conservante, estabilizante que contenha subprodutos de animais como o porco, não admitido pelo islamismo.
A primeira empresa brasileira a obter esse selo foi a Cooperativa Aurora, com seu suco Casa de Bento, em 2009, mas os brasileiros estão correndo atrás desse mercado que, segundo Dib Ahmad, movimentou, no mundo, 578 bilhões de dólares no ano passado só em alimentos e bebidas certificados. O Brasil, obviamente, quer sua fatia desse bolo e para isso vem participando das feiras de alimentos em Dubai, que neste ano reuniu cinco produtores de suco brasileiros.
Corpo e Sangue
Mais fáceis de agradar são, com certeza, os cristãos. Os evangélicos, que não permitem o consumo de bebidas alcoólicas argumentando o mesmo malefício que os islâmicos, servem suco de uva em suas celebrações da Santa Ceia e afirmam, como fazem os Adventistas, por exemplo, que o que Jesus bebeu não era vinho e, sim, suco.
Os católicos, por sua vez, são veementes ao afirmar que Jesus bebeu vinho. Uma das passagens mais importantes da Bíblia, em que os fiéis afirmam que Jesus começa a mostrar sua natureza sagrada, é a das Bodas de Caná onde, atendendo a um pedido de sua mãe, transforma água em vinho. Contudo, o grande momento do vinho na Bíblia é exatamente a Santa Ceia.
Desse episódio nasce a Eucaristia, que é o momento mais importante de toda a missa. "É nesse momento que o padre celebrante personifica o Cristo (in persona Christi) e repete as suas palavras sagradas que farão a transubstanciação do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo", explica o padre Juarez Pedro de Castro, da Arquidiocese de São Paulo.
Para essa celebração é necessário um vinho específico, determinado pelas leis canônicas no Concílio de Trento em 1917 e revisadas em 1981. Segundo essas leis, o vinho deve ser extraído "do fruto da videira", ser natural e genuíno, isto é, não misturado com substâncias estranhas. "Já há muito tempo o vinho para a missa tem a graduação alcoólica alta, por dois motivos: o primeiro é que ele deve ser guardado na Sacristia, onde não há refrigeração, e o segundo é que ele é consumido aos poucos e, por isso, precisa ser mantido íntegro por mais tempo", conta o padre.
No Brasil, o mais famoso vinho de missa é o Canônico, produzido pela Salton há 70 anos, desde que um padre espanhol, de nome Franco, cuja paróquia ficava do outro lado da rua da vinícola em Bento Gonçalves, percebeu que não havia ali nenhum vinho específico para a missa. Ele foi então falar com um dos fundadores da vinícola (Nini Salton) para saber se a empresa poderia fazer esse vinho e, com o pedido aceito, o padre trouxe a "receita". Desde 1957, a empresa tem a autorização da Cúria Metropolitana para fazer esse vinho que, atualmente, atende a igrejas de todo o País, com produção média anual de 300 mil garrafas. O corte de uvas Moscato (50%), Saint Emilion (40%) e Isabel (10%) resulta em um vinho licoroso doce, com graduação alcoólica de 16 graus Lussac.
Ortodoxos
Os cristãos ortodoxos têm uma aproximação ainda maior com o vinho na missa e em outras celebrações. O sacristão da Catedral Ortodoxa de São Paulo explicou que, durante a Eucaristia, os fiéis recebem uma pequena colher de vinho, que veio do cálice consagrado onde o sacerdote misturou o pão e o vinho. Além disso, durante as cerimônias de casamento, os noivos tomam três goles de vinho cada um, da mesma taça, simbolizando o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Até mesmo no batismo, as crianças recebem uma quantidade mínima de vinho e pão.
Ao contrário do que se imagina, o vinho de missa não é tinto, mas rosado. "Normalmente, os paramentos da celebração (acessórios, toalhas) são claros ou brancos e, se for um vinho escuro, será fácil manchar", revela o enólogo Ricardo Chesini, cuja família produz um vinho para missa desde meados da década de 1980.
Sendo ou não religiosos, mas como apreciadores de bons vinhos em momentos felizes, vale a pena lembrar as palavras do encarregado da festa das Bodas de Caná, que recebeu o vinho recém-transformado por Jesus: "Todo mundo serve primeiro o vinho bom e quando os convidados já beberam bastante serve o menos bom. Tu guardaste o vinho bom até agora".