Ela começa sua apresentação dizendo que o chef pode sim ser famoso, mas não deve aparecer mais do que o ingrediente que usa, do que a comida que faz. Ela afirmou, com olhos honestos de quem pratica o que prega, que quando alguém escolhe 'ser cozinheiro', essa pessoa escolhe 'servir', e isso inclui entrar pela porta dos fundos, se trocar no vestiário dos funcionários e trabalhar duro, entre tantas outras coisas.
Confesso que fiquei emocionada, por compartilhar com ela desse pensamento, dessa certeza!
Isso se aplica aos restaurantes, é claro, mas se aplica também à minha profissão primeira, a de jornalista.
Muitas vezes, nas viagens que faço, as pessoas querem tirar fotos minhas e eu costumo dizer que 'jornalista quando sai em foto é má notícia', pois acredito exatamente nisso que disse a chef e tomo a liberdade de parafrasear: o jornalista não deve aparecer mais do que a notícia, ele não é maior e nem mais importante do que ela, ele é - apenas e tão somente - o veículo para que uma informação chegue ao público.
Atualmente, com a falta de exigência de diploma para se exercer a profissão de jornalista, a situação da qualidade da informação piorou ainda mais, complicada pela disperssão dos veículos nas mídias alternativas e nas redes sociais sem controle algum.
É óbvio que não sou ingênua a ponto de acreditar que alguns anos em uma faculdade façam de alguém um profissional, no entanto, um pouco de estudo dedicado e o aprendizado de algumas técnicas específicas fazem de uma pessoa um profissional em formação mais habilitado.
Eu não aprendi sobre vinhos na faculdade, obviamente (até porque jornalistas são bebedores de café e cerveja), mas aprendi onde buscar informações, aprendi como colocá-las em uma ordem que favoreça a leitura para os diferentes públicos e veículos que existem, estudei mais português e técnicas de redação do que, por exemplo, um engenheiro ou um médico, aprendi a pesquisar, a perguntar, a ir atrás de uma informação que comprove outra - ou que a desdiga para garantir que os dois lados de uma questão estejam representados.
Os especialistas sempre existiram e vão existir, mas antigamente estavam restritos aos setores de economia (jornalistas em geral não se sentem à vontade com números), ao esporte e às artes. Mas isso nunca quis dizer que se o colega do futebol tivesse uma dor de barriga, o jornalista que escreve a página de cinema não fosse capaz de 'segurar as pontas'. Por que ele era capaz? Porque conhecia a técnica e sabia onde buscar o que precisava para sair naquele espaço. Não era especialista (esses eram os articulistas, onde entrava a opinião de quem tem fontes privilegiadas e se dedica apenas a um assunto), mas era jornalista. Para o jornalista de verdade não existe 'o que eu penso', existem as fontes, quem disse o quê e quando, quem me deu uma determinada informação. O especialista é quem o jornalista vai buscar para entrevistar, para consultar, não ele mesmo e o que ele leu em algum lugar. O especialista é, apenas, um dos lados da notícia.
Hoje, temos 'jornalistas' de variadas formações. Alguns deles até - acredito - são pessoas que deveriam mesmo ter estudado jornalismo e estavam na profissão errada. Esses serão profissionais da informação um dia, se tiverem um pouco de humildade e atenção. E eu tenho o privilégio de conhecer alguns, felizmente.
Mas, a enorme maioria é de 'especialistas' em algum outro assunto que obtiveram o espaço em veículos que não querem pagar por um profissional e que não acreditam que isso seja necessário. Eles não tem compromisso com a veracidade das informações que transmitem e muitas vezes são os 'copiadores oficiais' de releases (release é o texto que a assessoria de imprensa de uma pessoa, marca ou produto envia como divulgação), são pessoas que adoram brindes e viagens acima de tudo, e não tem o menor constrangimento em pedí-los, oferecendo um espaço em seus veículos como contrapartida. Comportam-se mal, saindo no meio de entrevistas coletivas, chegando atrasados, querendo se impor entre as fontes de informação pois seu nome é 'mais famoso', deixando eventos para onde foram especificamente convidados para 'ir tomar uma', sem pensar ao menos em dizer isso em voz baixa ou sair discretamente, adoram que seus nomes estejam à frente de quaisquer outra coisa.
Qual o resultado disso tudo? A informação verdadeira fica perdida, as fontes não sabem a quem atender e muito menos "como" tratar com essas pessoas. Os veículos sérios perdem anúncios em favor dos 'vendidos', os profissionais dedicados perdem espaço para muitas pessoas que fazem muito bem uma coisa: marketing pessoal, e vendem opinião como informação.
Mais de uma vez, no meio do vinho, já escutei de produtores: "olha Silvia, quando a gente tiver uma verba a gente fala com você para fazer uma matéria". Ou outra: "ficamos felizes com o veículo de fulano/sicrano/beltrano, pois a gente pagou, mas saiu exatamente o que a gente escreveu e mandou para eles".
Esses são os absurdos da 'imprensa' de hoje. Publicidade é uma coisa, e precisa estar lá para pagar as contas (não dá para viver sem publicidade gente!), mas editorial é outra. O produtor ou o produto, não precisa conhecer 'a Sílvia', mas 'a Sílvia' precisa conhecer os produtos que compõem o expectro do assunto sobre o qual ela trata em suas matérias.
Este ano, fiquei sabendo, que alguns eventos no Brasil tiveram pouca divulgação pois os organizadores não tinham dinheiro para 'pagar' as matérias. O que acontece? É um círculo vicioso pernicioso: o sujeito está começando, quer aparecer, vai lá e fala para o veículo/jornalista: 'olha, me dá uma forcinha neste assunto/evento que eu te mando uma caixa de mexericas'. O cara aceita e divulga. Na próxima vez, de novo a caixa de mexericas e o espaço na página. Mas, a longo prazo, não se paga papel e nem impressão com caixa de mexericas (pois o sujeito não anuncia nunca, só pede favor) e um dia a safra de mexericas quebra, daí o 'jornalista' sem mexericas não escreve nada. Viram? Para tudo. No começo é favor, depois vira obrigação de ambas às partes e um dia dá errado.
Se o evento em questão fosse tratado como o assunto/notícia que é, simplesmente e sem favorecimento, provavelmente teria espaço sempre e, eventualmente, o organizador iria pensar: "Puxa, acho que vale a pena fazer um anúncio lá, eles são sérios e nunca me pediram nada".
Quem ganha nesse caso? Todo mundo, o veículo que poderá pagar um jornalista mais sério (que será questionado e cobrado em suas atribuições pois não trabalha de graça ou por uma caixa de mexericas) e pagar a conta do papel, da tinta, da distribuição, o anunciante/produtor que terá a segurança de que o produto dele foi mencionado por ser importante, não por ser 'pagante' e, acima de tudo pessoal, o LEITOR, a única pessoa que realmente interessa no final disso tudo, aquele para quem pegamos o melhor ingrediente, com a melhor técnica, com o maior cuidado e com toda nossa humildade, e servimos a informação quente, fresca, honesta. E essa informação correta poderá, a longo prazo, vender um produto também honesto e correto.
Pensem nisso ao lerem, ao comprarem, ao anunciarem, ao darem uma entrevista, pensem em quem estão favorecendo a curto, médio e longo prazo. Pensem se vale a pena.
A informação, hoje, parece com o título do livro do
Parabéns Roberta Sudbrack, parabéns aos profissionais da informação que, entre as águas turvas e turbulentas que temos navegado, conseguem manter o microfone mais alto, sobre as águas.


