Colheita 2016

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domingo, 27 de maio de 2012

Alba, Piemonte, Itália

Fiquei uma semana na cidade de Alba a convite da Albeisa, associação que une os produtores dos vinhos Barolo, Barbaresco e Roero.
O convite era para participar do evento 'Nebbiolo Prima 2012', degustando as novas safras dos três vinhos mencionados acima.
Foram 349 vinhos no total, dividos em cinco manhãs de degustações, todas às cegas, no Palazzo Mostre e Congressi, no centro da cidade. Todas as tardes fazíamos visitas às vinícolas da região e depois tínhamos jantares com produtores.


A organização do evento me impressionou muito, pois éramos 70 jornalistas de várias partes do mundo, embora de baixo do Equador fôssemos apenas eu e dois australianos.
Aliás, esta foi a primeira vez que um jornalista brasileiro foi convidado a participar desse evento.
Do outro lado da cidade, no prédio de eventos da escola de enologia de Alba, 50 compradores do mundo todo (apenas uma brasileira também) faziam a mesma degustação, mas a deles era aberta, ou seja eles sabiam o que estavam bebendo.
Todos os dias sentávamos numa cadeira confortável em mesas individuais ou em dupla, com tudo absolutamente branco, limpo, silencioso e inodoro ao nosso redor.
Tínhamos cinco taças grandes de cristal, àgua com gás ou sem, grissinis, guardanapos, uma cuspideira e uma folha com os números das amostras, e o tipo de vinho e sua região de origem.
O resto era conosco e com os sommeliers que nos auxiliavam, três em cada sala. Gentis, atentos e muito, muito profissionais. Iam nos servindo os vinhos de cinco em cinco, com ajudantes que trocavam as cuspideiras, traziam água e grissinis frescos e regulavam a temperatura do ar condicionado conforme a manhã avançava e o sol esquentava.
Começávamos às 9h da manhã e tínhamos até às 13h para degustar em nosso ritmo.
Às 12h30 abria um buffet que seguia até às 14h30, para que todo mundo almoçasse tranquilamente e pudesse receber a lista com os nomes dos vinhos degustados, e seus respectivos produtores.
Não foram dias fáceis, embora para quem não é do meio pareçam com as férias ideais. Os vinhos - principalmente os Barbarescos - muito jovens e com alto grau de acidez e taninos verdes, são um desafio ao paladar. Engolir? Nem pensar! Com 60/70/80 amostras por dia, o paladar e o olfato ficavam exaustos e era imperativo parar, dar uma volta, descansar um pouco para depois voltar.
Os próprios produtores com os quais conversei acham esse ritmo uma loucura e se preocupam com as notas atribuidas aos seus vinhos nessas condições. Eles sabem que as primeiras e as últimas amostras sempre sofrem, não importa a qualidade que tenham. Mesmo assim, não há muito o que fazer. Os especialistas param tudo o que estão fazendo por uma semana para irem até o Piemonte e se dedicarem exclusivamente à isso. Estão acostumados. Reclamaram apenas no dia em que tivemos que degustar 80 rótulos de Barolos, muitos recém saídos das barricas, duros, jovens, intensos e fechados. Nesse dia mesmo quem está acostumado sofreu e muitos com os quais eu falei deixaram de degustar todos os rótulos, privilegiando sub-regiões que eles sabem que costumam produzir vinhos melhores.
Mas o fato é que eu, novata, estava em meio a feras da degustação. Jornalistas, editores de livros, guias e de revistas do mundo todo que estão lá todos os anos, que não apenas 'degustam' Barolos e Barbarescos, mas que tem poder aquisitivo e acesso fácil para 'beber' esses vinhos em suas variadas safras. Por lá, um Barolo de uma safra decente e de um produtor idem pode custar 30 euros (por volta de 80 reais) e os diferenciados podem ser comprados diretamente dos produtores por preços mais altos mas ainda assim praticáveis para quem recebe em euros (ou ienes por exemplo). Nesse ponto nós brasileiros estamos em clara desvantagem.
Fora isso, degustar é degustar. Todo mundo que trabalha sério no setor sabe o que fazer e sabe reconhecer defeitos (sim, eles existem mesmo entre os grandes) e qualidades (que também existem mesmo entre vinhos muito jovens). É preciso estar concentrado, limpar a cabeça, o palato e o olfato e começar o trabalho, que ao final de todos os dias, me deixava muito satisfeita e orgulhosa ao comparar notas com os colegas e encontrar percepções em comum, avaliações que seguiam pela mesma direção.
Isso não fez de mim uma expert. Talvez daqui umas três edições eu possa começar a pensar assim, mas essa experiência foi muito enriquecedora e lançou novas luzes sobre o trabalho que faço todos os dias, abrindo minha perspectiva, o que é uma coisa sempre salutar.

Nas próximas postagens vou falar de outros aspectos da minha estada na Itália, mas gostaria que nesta primeira mensagem de volta vocês soubessem qual foi o principal objetivo de minha viagem. E aqui vai uma explicacão final: esses vinhos (Barolos, Barbarescos e Roeros) seguem regras rígidas de suas DOCG (Denominação de Origem Controlada e Garantida) e elas delimitam a data na qual um vinho pode ser lançado no mercado, após seu amadurecimento em barrica e seu envelhecimento nas garrafas. Por isso o Nebbiolo Prima 2012 degustou as seguintes safras que estão, finalmente, aptas a serem lançadas:

Roero DOCG 2009
Roero DOCG Riserva 2008
Barbaresco DOCG 2009
Barbaresco DOCG Riserva 2007
Barolo DOCG 2008
Barolo DOCG Riserva 2006

Boa semana para todos e excelente brindes!

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